17 Nov 2019

Na Argentina, o fracasso da esquerda e da direita

Por   Sex, 30-Ago-2019
Favela em Buenos Aires: ideologia não é solução Favela em Buenos Aires: ideologia não é solução

A substancial vantagem nas eleições primárias do candidato da oposição na Argentina, Alberto Fernández, que sugere uma vitória com larga margem na votação decisiva em outubro sobre o atual presidente Mauricio Macri, não significa apenas uma volta dos Kirchner ao poder, com Cristina Kirchner na vice-presidência e suas políticas populistas de esquerda. Quer dizer que, depois de selado o fracasso da era Kirchner, os argentinos experimentaram o outro lado - e agora podem voltar atrás. É a saudade do ruim, diante do pior.

O jogo pendular entre esquerda e direita dos argentinos é o mesmo que ocorre no Brasil, ainda que numa fase anterior. Depois da tentativa social democrática com FHC e depois o lulismo, o Brasil experimenta o liberalismo radical de Jair Bolsonaro e seu ministro econômico, Paulo Guedes. Porém, o resultado também vai parecendo igual.

Como na Argentina de Macri, a economia brasileira mostra-se refratária a avanços substanciais, mesmo trocando o estatismo assistencialista pelo liberalismo radical. As campanhas de privatização, ou medidas como o corte dramático nos direitos trabalhistas, iniciadas já na gestão Temer, ainda não recolocaram o Brasil, como a Argentina, no caminho do desenvolvimento sustentado, com a redução do desemprego.

Argentina e Brasil possuem um problema em comum, que está na base da polarização eleitoral em ambos os países e também no desastre econômico de ambas as nações. A polarização tem servido apenas para anestesiar a população com falsas esperanças, diante de uma realidade que não mudou, inatacada por políticas tão antiquadas quanto seus ideologismos, que remontam ao tempo do marxismo-leninismo.

Isso ocorre porque a economia latino-americana, como a mundial, não reage mais a soluções econômicas ortodoxas, seja à direita, como à esquerda. A continuidade da crise provoca a alternância do poder entre forças antagônicas, com receitas opostas, definidas sobretudo pelo peso do Estado na economia. Porém, não é isso mais o que está em jogo num planeta onde se criam moedas virtuais, colocando à margem os bancos centrais, criam-se negócios transnacionais onde não existem fronteiras e não se pagam impostos sobre produtos na alfândega. E o desemprego aumenta com a queda de setores inteiros, como o varejo, onde as lojas físicas vão sendo substituídas pelo comércio virtual. Ao mesmo tempo, a concentração de renda nas mãos dos detentores das novas tecnologias, enquanto se forma uma massa de excluídos, se torna exponencial.

Seja qual for o resultado eleitoral na Argentina - Macri ou Fernández -, persistirá essa crise de base. Com a mudança do paradigma da economia mundial, uma massa de desempregados vai se transformando num novo lumpen, economicamente despossuído, mas ainda capaz de exercer grande pressão política.

Essa pressão começa também pelas redes digitais, que transformaram as antigas democracias representativas em democracias participativas, com acompanhamento das decisões de governo e a pressão também em tempo real. O meio digital oferece ainda uma inédita capacidade de organização e rápida mobilização das massas, levando os movimentos virtuais literalmente para as ruas.

A concentração de renda, por um lado, e o aumento do bolsão de pobreza, de outro, tendem a aumentar a o inconformismo e pressão reivindicatória, sobretudo nos países atrasados na corrida tecnológica global. A população vai se tornando ainda mais exaurida e zangada com os fracassos anteriores, seja o de Cristina Kirchner, que deixou o país falido e próximo da hiperinflação em 2015, seja o de Macri. A volta do kirchnerismo, dessa forma, soa como uma nova tragédia anunciada.

Isso só se explica porque, apesar da proposta liberal, com o atual presidente cresceram as dívidas interna e externa e um terço da população, cerca de 13 milhões de pessoas - incluindo 41% dos cidadãos de Buenos Aires - hoje está abaixo da linha da miséria, pelos critérios do Indec - o IBGE argentino.

Em vez de repetir velhas fórmulas, sejam populistas ou liberais, o próximo presidente argentino terá de encarar o fato de que a Argentina, como de resto toda a América Latina, se encontra mais que nunca no Terceiro Mundo. E não será com soluções provadamente inúteis, como a moratória já declarada por Macri, ou o congelamento de preços prometido por Fernández, que o país retomará o caminho do crescimento. Nem se recolocará de forma competitiva numa nova economia mundial já em marcha.

Com uma indústria sucateada e distante do novo valor econômico global, onde se levantam gigantes como a Rússia e a China, a Argentina tem pouco das soluções que hoje são a força motriz do planeta em mutação. Pode ficar pior se uma gestão a La Kirchner na Argentina afastar ainda mais o país do Brasil, em prejuízo não apenas do bom funcionamento do Mercosul, como do novo acordo com a União Europeia.

Enquanto o Brasil liberal de Bolsonaro tende a estagnar-se como um produtor agro-industrial, fornecedor de bens extensivos de baixo valor agregado, a Argentina sequer tem essa opção. Ambos os países se beneficiariam de uma política estratégica conjunta, capaz de reverter o cenário negativo em em meio às profundas mudanças no sistema produtivo pós-industrial, antes que a pressão da população mais pobre se torne explosiva. Do contrário, corre-se o risco da volta, antes impensável, dos regimes autoritários - que surgem precisamente nessas situações, como demonstra fartamente a História.