21 Jul 2019

Mitos, ditos e abobrinhas

Por   Qui, 09-Mai-2019

Se existe uma sabedoria popular, por qual razão não existiria uma burrice popular?

Dizem os espertalhões em história que ela se repete, primeiro se passa como tragédia e depois como farsa. Marx deu a ideia no 18 Brumário de Luís Bonaparte, de 1852, livro no qual analisa o golpe de estado perpetrado no ano anterior por Charles-Louis Napoleon Bonaparte, sobrinho e herdeiro de Napoleão.

A partir da leitura desse livreto ou apenas da frase famosa nele contida, muitos historiadores de botequim passaram a analisar a conjuntura comparando-a com experiências passadas. Algumas vezes acertam mais ou menos o alvo, mas em geral erram feio e fazem papel ridículo.

Foi o que se viu por ocasião dos acontecimentos desencadeados em 2013, quando o movimento contra a corrupção do governo PT-PMDB ganhou as ruas. Os críticos dos que defendiam a derrubada da presidente Dilma diziam que aquela campanha era a reedição do udenismo no governo de Getúlio Vargas, movimento que levou ao seu suicídio, em 1954, e deixou plantada a semente do golpe militar, dez anos depois. Como se viu, Dilma caiu, um militarista foi eleito sem dar um tiro - e até levando uma facada - os militares foram chamados para compor o governo e são hoje fiadores da democracia.

Há um dito popular que adverte: “Cada um acredita no que quer”. E é a mais pura verdade, embora a tal sabedoria popular, mesmo embasada na experiência histórica coletiva, não seja assim tão inteligente quanto falam. O vulgo pode passar por uma experiência e tirar dela ideias de jerico, em vez de uma lição com alguma utilidade. Entre uma cachaça e outra, ele pode dividir com os amigos de copo sua experiência mal digerida e sob efeito do vapor etílico encontrar quem não apenas concorde com sua conclusão sobre o episódio como em testemunho dirá que o mesmo sucedeu com a tia da empregada de sua madrinha. Daí em diante, sempre que alguém estiver prestes a passar por experiência idêntica, ou parecida minimamente, será advertido do que lhe acontecerá, com base na sabedoria popular dos pinguços que o cercam. É assim que se montam os mitos urbanos e caipiras.

Esses mitos vão dos mais rastaqueras aos mais pretensiosos. Sobrevivem, e se multiplicam, pois há sempre um idiota para acreditar neles e ajudar a difundi-los. O besteirol patrocinado por vovós bem intencionadas adverte que é risco de vida tomar banho depois da refeição. Se você leva um susto ou tem grande aborrecimento, vovó vem de lá com um copo de água com açúcar. A boa velhinha tem um treco, se você toma banho quente e sai no vento, com risco de ficar com a boca torta. Como você toma banho quente em todo inverno, caso tenha um derrame, vovó dirá: “Eu não disse?”. É perigoso, também, andar descalço no chão frio, correndo o risco de pegar resfriado, gripe ou pneumonia, como se não existisse função no mundo para germes, bactérias e vírus. E ela sabe: para seu cabelo crescer mais rápido, é preciso cortar as pontas. Não há evidência de que corte de queratina causa seu crescimento.

O que seria da agricultura, se não fossem os alarmistas do meio ambiente. A morte da humanidade estava traçada com o fim das abelhas, responsáveis pela polinização das plantas. Sabemos que os pássaros, morcegos e pequenos animais arbóreos e principalmente o vento trabalham na difusão do pólen. Além disso, estudo recente do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos constatou que houve um aumento no número de colônias de abelhas que produzem mel. Elas não estão morrendo. Chupa essa cana!

Elemento importante na difusão desses mitos somos nós, jornalistas. Adoramos um fato consumado, uma verdade estabelecida, uma muleta que nos ajude a firmar um raciocínio. Em geral, não sabemos nada. No momento de escrever sobre um assunto, pesquisamos, lemos, ouvimos especialistas e juntamos esses conhecimentos para fechar uma matéria honesta e útil para o leitor. Se no processo tivermos a tentação de uma muleta que nos ajude a botar um texto em pé, somos tentados a aceitar de bom grado.

E isso não ocorre apenas em temas difíceis, assuntos científicos ou filosóficos. Nos assuntos mais banais lançamos mão de jargões, lugares comuns, chavões e verdades estabelecidas que adiantem nosso lado. Nesse processo criamos um sem número de fatos concretos que concretamente nunca ocorreram. É verdade que isso acontece com maior frequência em pautas de menor importância para o andamento da história.

Mas, além de curiosos, esses casos ilustram bem o que estou dizendo. Por exemplo, Leônidas da Silva, o craque Diamante Negro, não inventou a bicicleta, que o consagrou. Ele se tornou um especialista na jogada, que foi inventada pelo espanhol naturalizado chileno Ramón Unzaga Asla, que realizou a jogada pela primeira vez em 1914, jogando pelo modesto Club Atletico Talcahuano. Mas isso não impede que a crônica esportiva continue a difundir o mito relacionado a Leônidas. Nada a estranhar, já que essa mesma crônica divide técnicos de futebol entre ousados e retranqueiros. E definem os ousados pelo número de atacantes que ele colocam em campo. Como se guarnecer a retaguarda não fosse tão importante para a vitória quanto atacar.

Outro caso popular e desimportante se refere ao samba de embalo Coisinha do Pai, do bloco Cacique de Ramos, sucesso na voz de Beth Carvalho, que foi tocado para despertar o robô Sojourner, em Marte, mas não na voz da cantora recém falecida. Foi numa versão de Elba Ramalho e Jair Rodrigues. Na morte da cantora não faltou quem publicasse que a voz de Beth Carvalho despertou o equipamento. De pasquins caipiras ao Fantástico, da Globo, muitos foram os que repetiram a informação desimportante, mas errada.

O problema maior surge quando usam desses recursos defeituosos para analisar a conjuntura política e econômica. Por esta razão tem sido uma tarefa árdua tirar da cabeça do vulgo a ideia de que a Previdência não precisa de reforma. Jornalista também tem disso, na falta de assunto inventa moda. Como esta crônica travestida de artigo, que você acaba de ler. Ossos do ofício.