2 Jul 2020

O que há de errado com os militares são os civis

Por   Ter, 02-Jun-2020

O Brasil sofre com uma malformação histórica, que é a crença das suas elites de que a conveniência do momento é mais importante que a segurança institucional. Isso fez com que apelassem a Lula, apoiando o PT para o governo, numa época em que o Brasil demorava a ter crescimento econômico. Foi a mesma elite que deu apoio a Bolsonaro, depois que o Estado gastou tudo o que tinha, dando poder de compra artificialmente ao consumidor de classe baixa, e o Estado falido ameaçava tomar os lucros de volta, aumentando impostos. Entrou Paulo Guedes como garantia desse acordo, e Bolsonaro está aí.

A elite brasileira é herdeira da sanha sem limites de seus antepassados, que remontam ao bandidos degredados paridores dos primeiros capitães do mato. O maior problema de só pensar no lucro do momento, com o sacrifício da população e ao arrepio da lei, é estragar o longo prazo, que depende de segurança institucional, base da tranquilidade econômica, do investimento e do progresso. 

Ao colocar supostamente um títere para resolver o problema da hora, a elite brasileira, que no final determina o destino do país, dando recursos e instrumentos políticos para a eleição de quem prefere, ignora as pretensões ideológicas do escolhido, ou o fato de que tem seus próprios planos para o poder.

Quando o presumido títere coloca as asinhas para fora, ou a economia não anda como o esperado, querem jogá-lo janela afora, do que jeito que der.

As instituições brasileiras são apenas instrumento desse joguete de poder econômico, utilizadas quando convém, desvirtuadas quando necessário. O resultado disso é que o Brasil patina de erro em erro, sem um verdadeiro projeto de país.

Em nações como a Alemanha, onde as instituições são levadas a sério,  os projetos político-econômicos preveem décadas e não dependem até mesmo da mudança de governo. As instituições não viram do avesso por conveniência. É preciso estabilidade, confiança e perseverança para atingir objetivos dentro de planos de longo prazo, com moderação e responsabilidade, para fazer um país realmente prosperar.

Enquanto isso, vamos vivendo de trancos e barrancos e desmoralizando as instituições republicanas - a começar pelos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Outras dessas instituições que costumeiramente botamos fora do lugar são as Forças Armadas. Surgiu agora a conversa de que elas são o "poder moderador" quando há divergência ou impasse entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Uma dessas invencionices que só a conveniência de uns poucos pode explicar.

Trata-se apenas de um pretexto para trazer de volta um regime autoritário. Os problemas insitucionais já são resolvidos da forma devida, nos termos da Constituição. Um poder controla o outro e, em vez de reclamar de ser controlado, ou atacar o outro por conta desse controle, cada poder deveria tratar de corrigir seus erros e fazer as coisas certas, dentro da da linha da lei. O resto é baderna.

As Forças Armadas, como instituição, não têm interesse próprio, exceto servir ao seu propósito constitucional, seja em tempos de guerra como de paz. Infestar os cargos de comando civis com generais, inclusive no Ministério da Saúde, é o mesmo que colcoar médicos no comando das Forças Armadas. Médicos recusariam tal proposta. Os generais, sob a convocatória da "missão", vêm aceitando esse camto de sereia, para aborrecimento e aflição daqueles que preferem manter a separação das coisas em nome da clareza e do bom funcionamento do país.

São os civis que apelam para a força, ou ao suposto controle coercitivo de situações de crise, quando, por sua exclusiva responsabilidade, deixam os problemas se tornarem maiores que a solução. A crise social, agravada pela pandemia, é obra da incompetência na administração do país, jogado de um lado para outro entre correntes ideológicas extremistas, por gente que não se importa com a ideologia, só com com estar ganhando. E não pensa nas consequências.

Está na hora de dar um basta nos radicalismos e colocar um governo de pé no chão, voltado para a resolução dos problemas, não para a defesa do interesse de uns poucos. E que acabam prejudicando a si mesmos, porque ninguém ganha dinheiro num país em naufrágio.

A tolice da elite brasileira é o que nos mantém no atraso. Ela é que é precisa de reforma. Até mesmo no regime militar, os civis são o problema. E não cabe aos militares consertá-lo. Cabe à elite consertar a si mesma - se quiser, de fato, continuar ganhando dinheiro.