19 Fev 2020

Lula, Bolsonaro e a asfixia das velhas ideologias

Por   Dom, 10-Nov-2019
Lula com Morales: volta do que já não deu certo Lula com Morales: volta do que já não deu certo

O presidente da Bolívia, Evo Morales, membro da tríade bolivarianista sulamericana, cujas outras duas pontas são Lula e Nicolás Maduro, renunciou neste domingo, expelido pelas Forças Armadas, sob pressão popular.

Seu governo de opereta ficou insustentável, depois da revolta popular na qual as casas de sua irmã e de dois governadores foram incendiadas.

A explosão de ódio é o ponto final da desilusão com a falta de soluções para a retomada do emprego e a redução das desigualdades sociais, além, no caso boliviano, da falta de liberdade.

Não são apenas as ideologias de esquerda que estão sendo asfixiadas. Na Argentina, o capitalismo liberal de Macri perdeu para o kirschnerismo, que voltou ao poder, mais por Macri ter sido um desastre pior que por fé nas fórmulas da esquerda populista.

O Chile, outro modelo do capitalismo liberal com o qual se prometeu melhorar a vida da população, também foi tomado pelas manifestações de rua, a partir de um aumento de centavos no transporte público, que foi a gota d' água.

A revolta contra governos tanto de esquerda quanto de direita mostra uma coisa só: o esgotamento de velhas fórmulas, que não funcionam na economia conteporânea. Ela hoje atua por meio de outros mecanismos e não responde mais a receitas ortodoxas, sejam liberais, sejam estatistas, ou socializantes.

As manobras econômicas das facções ficaram tão velhas quanto o seu ideário político.  No Brasil, o embate entre Lula e Bolsonaro é também o desespero agônico de quem está fadado a desaparecer. Ambos os lados jogam-se à luta e apelam ao populismo mais baixo, como último espasmo de sobrevivência num mundo onde já são um desastroso anacronismo.

Voltar ao passado que já não deu certo, seja com Lula ou qualquer de seus prepostos, é algo tão ilusório quanto acreditar que o liberalismo radical e as aspirações de um antigo autoritarismo de fundo militar de Bolsonaro serão a solução para todos os problemas brasileiros. Basta olhar para o Chile e a Argentina que saberemos o final do filme, tanto quanto a Bolívia ou a Venezuela.

É preciso que surja no Brasil a força pós-ideológica, de um movimento político voltado para soluções modernas de gestão pública e aperfeiçoamento do regime democrático na era da informação. Fórmulas autoritárias de dominação, que fazem proselitismo, manipulação e doutrinação com ajuda das redes sociais tentam iludir o povo mais pobre porque essa é sua única e última aposta. Mas não será possível continuar essa enganação diante da realidade contemporânea, que aflige não apenas o Brasil e a América Latina como o mundo inteiro.

A concentração de renda é resultado do globalismo da era digital. A dinâmica do mundo de hoje envelheceu as fórmulas econômicas e o próprio regime democrático representativo, que também não responde com a velocidade e a capacidade necessárias à formação de comunidades globais. Estas demandam por eficiência e precisão nas decisões de interesse coletivo.

O desemprego, a queda da arrecadação de impostos e o enfraquecimento dos Estados nacionais precisam ser avaliados em conjunto pela sociedade, num plano também internacional. É preciso que haja coordenação no mundo inteiro para enfrentar as questões globais, que vão da pobreza ao meio ambiente.

Para isso, precisamos de líderes com a mente voltada para o globo, e não apenas em defesa do curral nacional, como tende a ser a volta do conservadorismo nacionalista, seja no Brasil como nos Estados Unidos. Não se trata de uma questão ideológica. Não adianta lutar contra o avanço do mundo. É preciso compreendê-lo e criar os mecanismo para controlar seus efeitos negativos, capitalizando o que ele pode trazer de melhor para a sociedade como um todo. Voltar para a década de 1960, o voto em papel, o comunismo cubano ou o reaganomics não é a solução.

É preciso que venha a politica pós-ideológica, capaz de pensar além das fronteiras, para que tenhamos efeitos também dentro de cada país. Caso contrário, estaremos assistindo a um mundo cada vez mais em convulsão, dentro de um guerra em que todos perderão.