19 Fev 2020

Lula aposta na turba de marginalizados

Por   Dom, 17-Nov-2019
Lula: salvador dos marginalizados Lula: salvador dos marginalizados

O ex-presidente Lula saiu da prisão já concertando como será sua ação política nos próximos tempos, com vistas, ninguém se engane, a retomar o poder. Depende de limparem sua barra no Supremo Tribunal Federal, o que, por incrível que pareça, se encontra bem encaminhado, com a benção até mesmo do presidente Jair Bolsonaro, que não quer ver também o filho Flavio e sabe mais quem atrás das grades.

O plano de Lula tem uma vertente principal. Pode-se entender qual é a partir de uma fala aparentemente despretensiosa do ex-presidente, em conversa com o seu núcleo organizador. "Eu não posso ver mais jovem de 14, 15 anos, sendo assassinado pela polícia porque roubou um celular”, disse ele.

A frase, em si, despertou o desprezo de todos os que já detestam Lula, como seria de se esperar. Soa como caçoada, ou ofensa à inteligência, partindo de um ex-presidente condenado por corrupção e que vem se safando graças às artes da jurisprudência brasileira. Porém, por trás da frase, há um plano - que seus opositores não deveriam desprezar.

Pode-se dizer de Lula tudo - menos que ele não sabe orientar-se nas águas da política. E Lula tem em mente uma só coisa. Há no Brasil hoje uma imensa massa de marginalizados de toda espécie. Desempregados, há 13 milhões. Existem outros tantos, incontáveis, porque sequer entram no radar das estatísticas. Essa, entende Lula, será sua grande força política.

Na tradição marxista, essa marginália, que vai do drogado ao pequeno ladrão, do desempregado ao sem-esperança e sem-perspectiva em geral, é conhecida como o lumpen-proletariado. Uma gente abaixo da linha da cidadania, disposta a tudo e, por isso mesmo, sempre inclinada a se tornar uma turba violenta. No XVIII Brunário de Luís Bonaparte, Marx conta a história de como um candidato a imperador volta ao poder justamente manobrando milícias de desordeiros que não têm nada a perder.

Nas conversas que Lula já teve, segundo circulam em rodas de diigentes da CUT, a reflexão do ex-presidente, levada ao partido, é de que Nicolás Maduro estava certo. Manteve sob controle as Forças Armadas e ativou milícias políticas, também armadas, que formam um poder paralelo, do tipo que agiu para evitar a fuga de venezuelanos pela fronteira com o Brasil.

Segundo essa avaliação, tivesse o PT essas duas coisas - controle das Força Armadas e as milícias, para garantir a "ordem" também fora da ordem legal - Dilma não teria caído, assim como Evo Morales, na Bolívia.

Se Lula chegou ao poder da primeira vez como representante do operariado - o trabalhador qualificado, a quem ele sempre fereceu a luta contra o patrão pela posse dos meios de produção - ele volta agora como o salvador dos degredados sociais. Que, infelizmente, podemos chamar hoje de povo brasileiro. Uma parte deles é formada pelo próprio antigo operariado lulista, que perdeu o emprego na crise gerada, em boa parte, por ele mesmo, Lula, com suas políticas ruinosas ao Estado.

Seja quem for que vá enfrentar Lula politicamente nas próximas eleições, com ele pessoalmente ou não à frente da campanha, terá de levar isso em consideração. Não haverá sucesso político sem um discurso próprio e uma ação efetiva para tirar a tampa da panela de pressão social, de onde Lula espera a explosão.

Essa é uma tarefa essencial. Em primeiro lugar, por Humanidade, em defesa de todos aqueles que vivem na mais indigna miséria e se tornaram massa de manobra para líderes inescrupulosos. Segundo, em defesa da lei e do estado de direito, para evitar que, à frente de um exército bárbaro, Lula volte como escreveu Marx no XVIII Brumário: não como mais como uma farsa, mas como tragédia.