15 Set 2019

Igualdade de gêneros é agenda econômica

Por   Qua, 03-Jul-2019
Workshop “Mulheres no Mercado Digital”, em 01 de julho de 2019. Workshop “Mulheres no Mercado Digital”, em 01 de julho de 2019.

O mercado digital tem se mostrado um caminho viável para a diminuição da lacuna entre gêneros na ocupação profissional mundial.

Esta foi a temática do workshop “Mulheres no Mercado Digital” realizado em Genebra nesta segunda-feira (1), o quinto de uma série que vem desenvolvendo a ideia da equiparação de gêneros por meio da economia digital.“Precisamos explorar mais as conexões geradas entre o crescimento do mercado digital e o empoderamento feminino”, disse o embaixador da União Europeia, Marc Vanheukelen, na abertura do evento.

Acrescentado à agenda mundial durante a 11ª Conferência Ministerial da OMC em Buenos Aires, no fim de 2017, o tema inclui discussões como a promoção do empoderamento feminino por meio da redução ou remoção de barreiras sociais, tecnológicas e culturais que limitam a participação da mulher no mercado mundial.  

Recém-chegado de Osaka, o diretor geral da OMC, Roberto Azevêdo, disse que os líderes do G20 também manifestaram fortemente o seu apoio ao empoderamento feminino durante o evento no qual conseguiu que 24 países assinassem a Declaração da Economia Digital, em apoio à criação de regras internacionais para o mercado eletrônico.

“Temos de reconhecer a escala de oportunidades que a economia digital oferece; especialmente para mulheres, pequenas e médias empresas e outros grupos excluídos, como comunidades rurais em países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos”, disse Azevêdo no painel de abertura do workshop.  

Nem tudo são flores 

Uma das anfitriãs do evento, Makeda Antoine-Cambridge, embaixadora de Trinidad e Tobago lembrou que a realidade ainda não está muito fácil para as mulheres. “Vivo em um país cuja presidente é mulher, assim como a ministra de comércio exterior e indústria, e onde há números recordes de liderança feminina, além de uma política de gêneros em vigor desde 2017”, disse Cambridge durante a abertura do painel.

Mas ela alertou que o desenvolvimento é um processo multifacetado, de dimensões sociais, econômicas, políticas. Uma das medidas que seu país adotou foi separar as estatísticas populacionais por gênero. “Assim, conseguimos adquirir informações mais claras sobre a situação social e econômica das mulheres no país.”

O fluxo global de mercadorias comercializadas por meios eletrônicos aumentou 18 vezes entre 2005 e 2012 e a expectativa é de que, até 2025, o volume ainda cresça em até oito vezes, segundo embaixador Vanheukelen. “E isto diz respeito a apenas uma parte do mercado digital, que são as vendas de produtos físicos entre países diferentes”, diz ele, lembrando que há uma gama de outras negociações digitais internas ou que não envolvem mercadorias.

No entanto, segundo relatório do East-West Center, 2,3 bilhões de mulheres no mundo não têm acesso à Internet. Elas possuem 14% menos aparelhos celulares do que homens, e são menos propensas a estudar assuntos relacionados à tecnologia.

A União Internacional de Telecomunicações mostra também que a proporção de mulheres com acesso à Internet é 12% menor do que a dos homens. Em países subdesenvolvidos, essa margem dispara para 33%: em alguns locais da África, mais de 40% das mulheres não sabem fazer uso de ferramentas digitais para atividades profissionais e tampouco pessoais simples, como pagar uma conta.

Um relatório da McKinsey, específico para o mercado de e-commerce da Indonésia, mostrou que o país deverá aumentar o faturamento provindo do mercado digital de US$ 8 bilhões para US$ 65 bilhões em cinco anos. O mesmo relatório diz que empresas lideradas por mulheres já respondem por 35% desse faturamento on-line. No mercado off-line, as administrações femininas representam apenas 15%.

Apesar de foco central das discussões, o uso da tecnologia para aumento da participação feminina no mercado de trabalho não envolve apenas atividades relacionadas ao mercado on-line. A inclusão abordada nos fóruns que se seguiram à declaração de Buenos Aires diz respeito também ao uso da tecnologia para melhorar a condição da mulher de exercer seu papel natural de mãe, como, por exemplo, possibilitar o trabalho remoto, acompanhar os filhos sob responsabilidade de outros durante seu horário de trabalho, ou viabilizar um transporte confiável e rastreável para buscar uma criança na escola quando surge uma reunião de última hora.

Regras para crescer

De um lado, vimos as plataformas de e-commerce facilitarem a conexão entre compradores e vendedores no mundo, o que já abriu oportunidades para empresas se lançarem no mercado global. Procedimentos alfandegários vêm sendo digitalizados e padronizados, com ferramentas que impedem fraudes e garantem tanto a idoneidade dos operadores quanto a segurança das informações.

De outro, no entanto, vem o alerta da OMC: é necessário estabelecer novas normas e práticas para a economia digital, impedindo a fragmentação e a proliferação de regras desconexas e contraditórias – o que significaria aumento de custos e retomada de barreiras econômicas, além da retração das novas oportunidades trazidas pelo mercado eletrônico.

Além disso, de pouco servirá o crescimento do meio digital se não houver políticas justas e vigorosas para melhorar a infraestrutura e o acesso às redes de conexão.

Há um potencial enorme para ser explorado, e o mercado digital tem se mostrado uma saída eficaz para a equalização social. Mas, antes conquistá-la, há outras barreiras que, por hora, não serão vencidas ao clique do mouse.