19 Set 2019

Guerra de versões

Por   Ter, 30-Jul-2019

O importante é manter a narrativa

Por esses dias o presidente Bolsonaro afirmou que o pai do presidente da OAB foi morto por militantes de esquerda. A Comissão da Verdade reconheceu que ele foi morto pelos porões da ditadura, em 1974, e seu corpo consumido nos fornos da Usina Cambaíba, em Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio.

Foi um fuzuê danado. O povo ainda não se acostumou ao estilo do presidente. Ele diz o que pensa, sem filtro. Às vezes ele está errado, às vezes está certo, mas diz coisas que um presidente normal evitaria dizer. E sempre provoca um terremoto. Com ele não tem dia calmo. Cada enxadada é uma minhoca.

Alimenta a imprensa e a oposição com seus factoides como quem dá ração a peixinhos no aquário. Mas convenhamos, quem é que não tem a própria versão dos fatos no que diz respeito ao embate entre o governo militar e a esquerda armada? Os dois lados pintam quadros diametralmente opostos.

Historiadores têm feito um esforço para contar a verdade sobre os anos de chumbo, mas para cada um que tenta apurar o real no emaranhado de narrativas há dez tentando impor sua versão, ditada pelo interesse estratégico de seu grupo ideológico. Na era da pós verdade, não se faz jornalismo ou história.

Faz-se versão. Constroem-se narrativas. Essa praga não ficou restrita ao embate ideológico, ao confronto de ideias. Ela tomou conta do dia a dia. Legiões de brasileiros ignoram as provas de um crime e se deixam convencer por argumentos falaciosos e teorias da conspiração, que em condições normais de temperatura e pressão seriam motivo para riso.

Porém, para salvação da lavoura, a polícia, o Ministério Público e a Justiça não mexem com essa mercadoria. Lidam com fatos, testemunhos e provas materiais. Por esta razão, há um hiato entre o que vai nas páginas impressas e as consequências na vida real. Não fosse esse detalhe, seria o fim da história.

É por aí que se segura a turma lavada e enxaguada pela Lava Jato, se defendendo da enxurrada de acusações, provas e condenações, negando a realidade, criando versões, valendo-se da pouca acurácia de historiadores e na militância de setores da imprensa.

É com extrema cara de pau que os flagrados com as calças arriadas clamam pela inocência e acusam instituições de estarem mancomunadas para condená-los por razões políticas. Os bilhões devolvidos pela Lava Jato aos cofres públicos e à Petrobrás vieram de onde, se não houve roubo? Não se imagina inocentes entregando 100 milhões ganhos honestamente aos cofres públicos, sem espernear.

Gente do primeiro escalão dos governos passados confessam os crimes, mas isso não tem valor? Tem, sim, mas basta fincar pé e manter a narrativa para dar munição à militância e aos historiadores engajados, que cuidarão de limpar a barra junto ao leitor desavisado. Reescrevem a história recente, como já reescreveram a distante.

Caso emblemático é o da facada de que foi vítima o então candidato do PSL. Os partidários do presidente alimentam a teoria de que houve um complô envolvendo gente grande, sendo o criminoso um pobre diabo incapaz de planejar o ataque. Pobres diabos também fazem besteiras e cometem crimes.

De todo modo, essa é uma versão mais plausível que a dos opositores do presidente, que com o precioso incentivo do presidiário Lula divulgam a versão de que tudo não passou de uma farsa. Não teria havido facada. Seria só uma armação, envolvendo dois hospitais, dezenas de médicos, enfermeiros, instrumentadores cirúrgicos, auxiliares, populares e seguranças.

“Aquela facada tem uma coisa muito estranha, uma facada que não aparece sangue, que o cara é protegido pelos seguranças “, disse Lula. Nós também não vimos o câncer que o acometeu. Mas não me lembro de alguém da oposição de então ter duvidado do diagnóstico.

Neste exato momento, já se vê o duelo de versões no caso do acesso de hackers aos celulares e aplicativos de autoridades. Antes mesmo de terminados os interrogatórios dos detidos, já começaram a aparecer as versões.

Uns dizendo que são pés de chinelo do interior paulista, escroques vulgares, que se meteram numa encrenca. Outros garantindo que os hackers estavam a serviço de uma bem urdida conspiração. Pelo que se sabe até agora, tudo é possível. A verdade só será revelada no capítulo final. Mas pouco importará. Cada lado manterá sua narrativa. Por honra da firma. E a imprensa vai ajudar nos dois casos.

Mas não é só na conjuntura que esse fenômeno se manifesta. Quem ler certos manuais de história adotados pelo MEC vai concluir que o mundo só dará certo quando for socialista. É a história do futuro feita por quem nega o passado. Se deu errado, no passado, não era, ou não era mais, socialismo. Muitos estudiosos se esfalfaram para dar conceito de ciência ao estudo sistemático da história. Mas o que se vê nas estantes tem muito de panfletagem.

Não se baseiam na realidade dos fatos, não partem de uma hipótese para buscar sua comprovação, curvando-se à realidade. Começam o trabalho com uma certeza e buscam fatos isolados, fabulações e ideologia para confirmá-la. Não encontrando nada que ampare a argumentação, inventam. Distorcem para dar suporte à ficção travestida de história. Novos trabalhos têm derrubado mitos que se firmaram na historiografia militante. Mas nas salas de aula persiste a empulhação.

Durante um bom tempo vigorou o mito de que o Brasil cometeu um genocídio contra o povo paraguaio
numa guerra que visava destruir uma potência vizinha comandada por um heroico presidente. Só mais recentemente novos estudos revelaram que Solano Lopez era um ditador e governava um país atrasado, sem oposição, cujo único jornal era estatal. Os livros que vendiam a lorota não se baseavam em fontes primárias, eram fruto do engajamento ideológico de seus autores. Ou seja, eram versões dos acontecimentos.

Quem vai por certos livros de história adotados oficialmente imagina que o europeu inventou a escravidão, que na verdade já existia no continente africano milhares de anos antes da chegada do homem branco. Isso. Milhares de anos. Fenômeno histórico deplorável, o tema da escravidão rende ainda hoje, quando se trata de dividir uma sociedade, mesmo depois de séculos passados.

É politicamente perturbador contar a história de nababos do Daomé (atual Benin) que nadaram em ouro na compra e venda de escravos, com escritórios em Salvador e Abomei. O reino do Daomé e o Brasil Colônia mantiveram boas relações diplomáticas em função do interesse comum na tráfico negreiro. A ideia de que os portugueses chegavam à África em safáris para caçar nativos e escravizá-los pode ter alguma correspondência na realidade.

O que se sabe, no entanto, é que esse comércio era mais convencional, produzindo riqueza para figurões, brancos e negros, nos dois continentes. Mas tem maior apelo e serve à política geral de vitimização de um contingente importante dos brasileiros, e a divisão da sociedade contemporânea, a versão maniqueísta. A história como ciência perde, mas as escolas de samba ganham bons enredos.