17 Out 2019

Governo à deriva

Por   Ter, 08-Out-2019

Eleito por 58 milhões, mas governando para a corriola

Bolsonaro está num mato sem cachorro. Seu sincericídio e a falta de jeito para a função combinados com as dificuldades externas e internas, que impedem o país de deslanchar, criaram um clima político que pode ser devastador para sua popularidade e o sucesso de seu governo.

Sua eleição foi fruto do grande desgaste do PT, que enfrentava escândalo em cima de escândalo, desaguados no Mensalão e no Petrolão. O primeiro marcado basicamente pelo rateio de cargos em nome da governabilidade - num tipo de acordo que dava carta branca aos aliados para fazer o que quisessem em estatais, autarquias, secretarias e ministérios - temperado com mesadas a parlamentares que topassem compor a base governista. Depois, o Petrolão, no qual predominava a cobrança e partilha de propina nos contratos da Petrobras.

Não bastassem os desmandos que macularam a moralista UDN de macacão (apelido dado ao PT pela pregação anticorrupção dos anos 80), o partido virou saco de pancadas pela desastrosa política econômica do governo Dilma e sua Nova Matriz Econômica conduzida por Mantega.

A situação do partido ficou muito ruim e seus políticos passaram a ser hostilizados nos aeroportos e até dentro de aviões e restaurantes. Nessas circunstâncias, era de se esperar que o PSDB crescesse e promovesse o revezamento no poder, como parecia ter virado a norma informal da disputa política nacional. Mas os tucanos chegaram à sucessão de Dilma/Temer mais desacreditados que nunca e respingados nos escândalos que a Lava Jato e outras operações iam desencavando. E a posição vacilante nas crises petistas também tiraram do partido o cacife de legitimidade para que se constituísse numa alternativa viável. Nem as boas administrações do partido em São Paulo salvaram a sigla.

Essa conjuntura abriu espaço para a direita ideológica, que se apressou em mostrar que tucanos e petistas eram farinha do mesmo saco. Quem despontou como aglutinador do sentimento anti-esquerda foi o deputado Jair Bolsonaro.

Ao mostrar que era o único capaz de vencer a esquerda (Ciro parecia ter cacife, mas era visto como mais do mesmo: uma esquerda histérica e desbocada, mas ainda assim esquerda) o capitão que contava com legiões de apoiadores ideológicos nas redes sociais passou a receber adesão daqueles que viam na derrota petista a coisa mais importante a decidir nas urnas.

Ainda assim, sua vitória foi apertada, pois nem o desgaste do PT em quatro mandatos foi o suficiente para muita gente apoiar um candidato de direita com identificação com o regime militar morto havia três décadas. Ainda no primeiro ano de governo, o presidente só pode contar com aproximadamente um quarto do eleitorado. O que não é pouco sob crise econômica. Mas coloca em risco a reeleição, mesmo que o desgaste do presidente pare por aí.

A questão mais grave é a perda de apoio no Congresso. A cada semana mais parlamentares se afastam do governo. E não só parlamentares do centro volúvel. Até parlamentares de direita e liberais começaram a desembarcar da base governista. Seja individualmente, como aconteceu com o deputado Alexandre Frota, ou coletivamente, como acontece com o MBL.

Se o PT de Lula pode contar, mesmo desgastado pelos escândalos e desastres administrativos, com uma ampla esquerda que vai muito além do partido, mas não hesitaria em a ele se juntar contra a direita, esta por sua vez está se dividindo à velocidade da luz. Isso se dá porque o presidente passa os dias bolando maneiras de dar tiros no pé. Desgasta-se por picuinhas.

Ele e seus filhos vivem espicaçando de generais do governo e deputados da base ao cacique arroz de festa Raoni. Brigas que não dá para ganhar, pois nada há em jogo que se pareça com uma prenda ao vencedor. O desgaste da imagem interna e externamente é gratuito e não o comove.

No parlamento, a base do governo sempre foi fugaz. E segue encolhendo. A grande conquista de seu primeiro ano de governo, a Reforma da Previdência, não é mais sua desde que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, bateu-lhe a carteira e tomou para si o esforço pela aprovação.

Não bastasse isso, a falta de articulação e a inabilidade no trato com senadores e estados ameaçam a aprovação final do projeto na casa alta do parlamento.
Some-se a isso o fisiologismo de senadores movidos por 0% de interesse público. É muito desgaste para apenas três trimestres de governo.

A continuar assim, fica difícil imaginar mais três anos e um quarto desta administração. Como poderá conduzir o país sob crise interna num mundo que caminha para uma provável recessão governando para a corriola do Whatsapp, desrespeitando a separação igreja-Estado, batendo boca com índios e ONGs, negligenciando a base parlamentar e a importância fundamental das reformas? Ninguém sabe.

O fato é que Bolsonaro está longe de ser um conservador liberal. É apenas um reacionário que está perdendo a chance de ser um aglutinador consistente das forças que o apoiaram nas eleições. E, ao contrário da esquerda, que tem organização e está enraizada na sociedade graças a décadas de pregação e atuação nas escolas, comunidades, sindicatos e associações, a direita está se esfacelando rapidamente, por falta de prática política e coesão.

Se há uma direita liberal, que crê na democracia, há também uma direita bolsonarista, que culpa a democracia por todos os males da nação, quer rasgar a Constituição e prega diariamente a dissolução do STF e o fechamento do Congresso.

Jair Bolsonaro tem muito tempo para dar uma guinada e vestir o figurino de estadista. Mas não parece estar interessado nisso. A tendência é que se firme como uma espécie de Sassá Mutema que chegou lá. Como um cachorro que caiu do caminhão de mudança e está perdido sem saber para onde ir.