17 Out 2019

Estupro e impunidade

Por   Sex, 03-Mai-2019

Não é uma “cultura”: esse crime tem nome e sobrenome.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2017 houve no Brasil 60 mil estupros. Oito e meio por cento a mais que no ano anterior.

Esse número está virando um marco da desgraça no país. 60 mil assassinatos, 60 mil mortes no trânsito, 60 mil estupros. Dá para desconfiar, mas nada que disfarce o fato de que há estupros em quantidade epidêmica. Penas brandas, impunidade, selvageria, são muitas as explicações.

Eu já disse aqui neste espaço que essa história de uma cultura do estupro é balela. O brasileiro é intolerante com estuprador, precisando ser contido para não fazer justiça com as próprias mãos.

Quando o desinfeliz escapa às mãos da turba, a rapaziada engaiolada aplica o corretivo. O estuprador é maquiado, ganha uns trapos com pretensão de saia e é passado em armas. E dará graças a Deus se esse “passado em armas” for só no sentido figurado. Resumindo, provará do próprio veneno.

A selvageria tem uma explicação, dizem os malacos que do lado de fora deixaram mães, irmãs, filhas, esposas, namoradas etc. Exemplando o extuprador, estariam advertindo e desestimulando os tarados.

Mas as coisas não são tão simples assim. Dependendo da classe social dos envolvidos a coisa pode ser bem diferentes. Há nos grotões deste país e até mesmo nos grandes centros, uma classe de cidadãos os quais não são facilmente alcançados pela lei oficial ou pela lei marginal.

São pessoas com bala na agulha para comprar a impunidade com influência política e patrocínio de notáveis escritórios de advocacia. Eu testemunhei essa experiência uma vez, como jornalista. Na ocasião, saltou aos olhos a reprovação do ato criminoso de um lado e, aí sim, a cultura da impunidade.

Nos anos 90, uma jovem do interior de SP foi convidada por rapazes de famílias abastadas do interior do nordeste para conhecer um recanto de belezas naturais. Como eles estavam na piscina do hotel, na presença de funcionários que os conheciam e os chamavam pelo nome, ela achou seguro ir. Foi estuprada por dois ou três deles, espancada e largada no mato. Moradores daquele ermo a ajudaram.

A história era escabrosa. Eu transformei seu relato em artigo e, depois de checar com a promotora local, soube que um exame comprovara a violência, mas que o caso não andava porque a polícia não conseguira ainda identificar os criminosos, embora fossem conhecidos dos funcionários do hotel. Publicamos o artigo.

O governo mandou a polícia agir e em pouco tempo eles foram identificados e presos. Depois disso, a coisa parou. Voltamos a tratar do assunto e houve nova agilização do caso, que acabou com todos condenados. O primeiro relato da moça parecia fantasioso e ela falava um tanto afetada.

Não passava credibilidade, mas não achei justo me deixar levar pela aparência. Não havia internet, mas por telefone pude fechar o artigo com segurança. A mãe de um deles telefonou me culpando pela condenação do filho e dizendo que tudo não passara de estrepolia de jovens.

Essa mãe não estava subjugada pela cultura do estupro. Estava apenas sendo mãe. No fundo ela sabia que não se tratava de peraltices de seu rebento. O mito da cultura do estupro torna difusa uma culpa que tem RG e CPF.