17 Nov 2019

E Deus limitou a inteligência

Por   Ter, 03-Set-2019

O que leva alguém a duvidar das vacinas

O sarampo se alastra e o número de vacinados é insuficiente para bloquear seu avanço. Muita gente até vai ao posto de saúde e não encontrando a vacina desiste. Não procura outro posto onde a vacina esteja disponível.

Assim como aconteceu com a febre amarela, falta vacina em alguns postos, e não adianta as autoridades dizerem o contrário, o que dificulta a vida dos brasileiros. Mas com um pouco de insistência e boa vontade - e responsabilidade - os pais conseguem vacinar seus filhos.

Então, por que tem tanta criança sem vacina? Pais negligenciam seu papel por achar que a doença não é tão brava assim ou a vacina não merece sua confiança. Outros cumprem mandamento religioso que condena a medicação preventiva.

Não me levem a mal se desdenho de “cristãos” que acreditam em macumba, reencarnação e outras coisas incompatíveis com o cristianismo, mas duvidam da vacina. Não me culpem quando desprezo esses pais, assim como os “democratas” que justificam ditaduras da sua ideologia. Prezo mais os autoritários convictos e os macumbeiros sinceros. Ou os céticos e libertários autênticos.

Nessa matéria de crendice o brasileiro está sozinho. Nem o mais carola dos romanos crê com tanta convicção quanto o brasileiro. Até tomando cachaça ele manifesta seu misticismo, dando um gole pro santo. E acredita sobretudo em teorias da conspiração e lendas urbanas.

Nosso povo crê no atacado e no varejo. É uma fé intensiva e extensiva. Acredita na ressurreição lá no dia do juízo final, e acende vela para os anjos, bate cabeça no peji dos orixá e aposta na reencarnação como qualquer kardecista. É uma mistura de cristianismo romano convivendo pacificamente com a crença reformista dos evangélicos, mais pitadas de espiritismo, fé nos seres elementais e no horóscopo.

O sujeito paga o dízimo, certo de que a igreja que frequenta é a verdadeira, mas bota galho de arruda atrás da orelha pra tirar o mal olhado, toma banho de descarrego para afastar encosto, se benze ao cruzar com gato preto e não passa sob escada, que dá azar. Ele acende incenso e joga flores para Iemanjá na passagem do ano e no 2 de fevereiro, mas tem certa dúvida sobre a chegada do homem à Lua. Se protege com figas, talismãs e patuás. Peca o brasileiro pela fé excessiva. E sincera. Não se duvide da sinceridade da nossa fé. O brasileiro tem a certeza de que existe um céu, um paraíso onde um cantinho aconchegante está a ele reservado no pós morte.

Só não temos fé na ciência. Uns desdenham as vacinas, outros trocam remédios testados e comprovados por homeopatias questionáveis, florais de bach, cromoterapia, mezinhas caseiras, passes de rezadeiras e fazem de tudo para evitar as quizilas da vida. Quando a Santa Casa acolhe o enfartado e o salva graças ao pronto atendimento, ele vai a Aparecida agradecer a graça alcançada, gastando uma boa nota para isso, mas não doa um tostão àquela nobilíssima casa de saúde nem volta ao local para agradecer aos socorristas que o salvaram.

O jogador se benze ao entrar em campo, quando marca um gol,
aponta para o céu e sussurra: “É ele”, atribuindo a Deus sua habilidade humana. Como se Deus calçasse chuteiras e vestisse a camisa do seu time. Desprezamos os milagres terrenos, praticados por anjos e santos de carne e osso e nos entregamos de joelhos às delícias da vastidão esotérica. Lembramos aquele fiel da anedota, que refugiado sobre um galho ameaçado pela enxurrada recusa a corda lançada pelo ribeirinho dizendo que “está tudo bem, o Senhor vai me salvar”. Os bombeiros acorrem ao local de barco com grande risco, mas ele não embarca: “O Senhor me salvará”. Por fim, um helicóptero lança sobre ele uma escada pela qual espera resgatá-lo, mas o crente recusa, novamente: “Esqueçam, Ele a tudo vê e me salvará”. Mal acaba de falar, é lavado pelas água e morre afogado. No céu, questiona Deus: “Senhor, deixei meu destino em tuas mãos e não me salvaste”. No que Deus retruca: “Como não? Tentei várias vezes te salvar, até helicóptero mandei”.

Já tem brasileiro engrossando as fileiras dos terraplanistas. A terra não é plana e não é necessário o concurso da ciência para provar isso. A observação empírica dá conta. Mas sempre que a ciência confronta uma crença besta dessas, em vez de convencer o popular, só faz aguçar o fanatismo do cidadão.

O mais triste é que o mesmo sujeito que não acredita na ciência e em suas conquistas e descobertas comprovadas é aquele que crê em salvador da pátria e vive investindo toda sua esperança na eleição de gente despreparada que o conquista com um cardápio de promessas jamais cumpridas. Bem que Deus poderia ter limitado a burrice.