17 Nov 2019

Choque de gerações

Por   Qua, 21-Ago-2019

Jovens, inexperientes e arrogantes

O celular da garota foi encontrado onde ela o deixou. Dentro do carro. Mas ela, saindo da balada de cara cheia, não conseguiu encontrá-lo e resolveu responsabilizar o funcionário do estacionamento. O escândalo acordou a vizinhança.

O funcionário explicou: o carro ficou trancado e ela levou a chave. Para roubar algo de dentro do veículo o ladrão teria de arrombar a porta ou quebrar o vidro. E o carro estava intacto. Mas a garota, na insensatez dos 20 anos e embalada pelo vapor etílico, não aceitava o argumento.

Mesmo depois de seu acompanhante localizar o aparelho no canto do banco, dentro do carro, ela continuou a ofender e desafiar. A um ancião que reclamou de seu linguajar, respondeu com o dedo do meio e um sonoro “vá tomar caju!”.

Estamos criando gerações de pessoas mimadas, arrogantes e pretensiosas. São jovens que levam uma eternidade para amadurecer e assumir responsabilidades, mas que cagam regras e se acham donos do mundo e portadores das soluções para todos os seus problemas. E os pais, acovardados, acabam submissos aos monstrinhos que criaram e seduzidos pelas ideias de jerico que eles trazem da rua.

Não é incomum, hoje, ver pais lavados e enxaguados nas águas yuppies dos anos 80, 90, se tornando simpatizantes da agenda “progressista” por influência dos filhotes emprenhados pelos ouvidos por militontos nas universidades. Filhinhos de papai vestindo o figurino de revolucionário caribenho, sem nunca ter pago um boleto na vida.

É uma geração cheia de opinião, com forte poder de consumo, mas que leva uma eternidade para amadurecer e assumir responsabilidades. Não arruma o próprio quarto, mas quer salvar o mundo.

Falta a esses filhos da classe média um pouco de vida fora do quarto, dos games e longe da segurança de sua casa. A experiência do intercâmbio longe do lar pode ajudar.

Sou da geração anterior às vacinas. Pegamos catapora, rubeola, sarampo e caxumba. Andamos por córregos, terrenos baldios e construções abandonadas catando restos de cobre, bronze, chumbo e alumínio para vender no ferro velho e comprar bola ou ir ao cinema. Os mais fracos da turma sofriam provocações e desrespeito, o que hoje chamam de bullying.

Naquele tempo, reclamar em casa dos aperreios da rua tinha efeitos colaterais graves, que iam da proibição de brincar fora de casa a se desmoralizar junto à molecada, caso os pais resolvessem tirar satisfação com os “agressores”. Era razão suficiente para apenas os “frutinhas” caírem na bobagem. Moleque de decisão não levava desaforo pra casa. Apanhar não era vergonha. Vergonha era não lutar.

Expostos às doenças e às leis das ruas, brincando descalço, comprando osso para a mãe fazer uma sopa, começávamos a trabalhar cedo, aos 12 anos, em meio período. E não morremos por isso. Também não nos tornamos delinquentes. Aos 18, já éramos adultos, depois do serviço militar seguíamos estudando e trabalhando ao mesmo tempo.

No meu bairro, na minha rua, no raio de 100 metros da minha casa, três garotos da minha turma se tornaram engenheiros, um contabilista, outros pequenos empresários, professores e até sociólogo e jornalista dali saíram. Quase todos oriundos de escola pública. Alguns órfãos criados por avós ou tias.

Hoje a garotada se tranca no quarto e se entrega aos games e às redes sociais. Nunca trabalharam, mas são youtubers, instagramers etc. Coisa para criança e adolescente, mas os adultos acabam embarcando nessa, para não ficar por fora da onda.

Já se assiste discussão de adultos sobre qual o melhor jogo eletrônico ou o desempenho dos filhos como digital influencer. Adulto deve discutir Lula ou Bolsonaro, ale ou lager, Cabernet ou Pinot, Marx ou Weber, Beatles ou Stones, Freud ou Jung, Mangueira ou Portela, loira ou morena, Europa ou EUA, (James) Joyce ou Henry (James), Beethoven ou Tchaikovsky, Jobi ou Bracarense, Estadão ou Folha, iPhone ou Galaxy, Canoa Quebrada ou Jeriquaquara, Búzios ou Paraty, biscoito ou bolacha, Pelé ou Maradona, tecno ou disco, vadia ou recatada, Vasco ou Flamengo, empoderamento ou língua de cristão, cospe ou engole? No bonde dos filhos, os pais se tornam adolescentes, também. Melhor não contrariá-los.

Até depois de se formar, o jovem é tratado como adolescente. Na barra da saia da mãe, financiado pelo pai, leva mais alguns anos para amadurecer e se tornar dono de seu nariz. Só depois de formado pensa no primeiro emprego.

Mimado, não suporta a pressão e na primeira bronca do chefe quer ir pra casa se queixar das injustiças da vida. Com um currículo desses, desacostumado a ouvir não, se revolta e vira um militante. Adere a alguma panaceia revolucionária, que varrerá as injustiças do mundo. É inacreditável sua arrogância.

Não é rara a cena de um pai tirando o filho do meio de uma manifestação que descambou em baderna. Cabe aos pais preparar os filhos para o mundo. Não é virando a cara para seus caprichos e paparicando que vão fazê-lo.

Filho é acelerador, pai é freio. Afinal, os pais conhecem as curvas do caminho. Não é se deixando seduzir pelo figurino de militante moderninho dos petizes que terão sucesso na empreitada de transformar crianças manhosas em cidadãos responsáveis e capazes de enfrentar as vicissitudes da vida.