25 Mai 2019

Brasileiros exemplares

Por   Dom, 17-Fev-2019
Nilo Peçanha: presidente negro Nilo Peçanha: presidente negro

Os negros têm muito do que se orgulhar

 

Há 110 anos, o Brasil tinha um presidente negro. Mas a imprensa, histericamente, alardeia que o Jornal Nacional tem uma mulher negra como âncora (eventual) pela primeira vez. Se revezando no sábado, já tivemos outros profissionais negros na bancada do telejornal. A boa profissional não precisa, mas vem tendo tratamento racista “do bem”, desde que assumiu a função de “garota” do tempo na emissora.

Num país no qual o cidadão mais mundialmente famoso é o negro Pelé, e que tem um Ademar Ferreira da Silva, bicampeão olímpico nos longínquos anos 50, alguns insistem em tratar o negro como um coitado a ser protegido e tutelado, a poder de cotas e coitadismo.

A ponto de, por força de um revezamento, uma jovem profissional negra ao cumprir sua obrigação se tornar notícia como se o fato fosse de um ineditismo notável. É um profundo desconhecimento da nossa história.

Nilo Peçanha, advogado fluminense formado na Faculdade de Direito do Recife, filho de um padeiro de Campos dos Goytacazes, notabilizou-se como abolicionista e republicano, foi presidente (governador) do Rio de Janeiro e compôs a chapa de Afonso Pena nas eleições de 1909. Com a morte do titular, assumiu a presidência da jovem República.

É o exemplo máximo, mas não único. Ainda no Século XIX, os irmãos Rebouças construíram uma carreira notável na engenharia, em plena época da escravidão. Os baianos Antonio e André Rebouças entraram para a história da engenharia nacional com uma obra exuberante. Netos de uma escrava alforriada, o pai, advogado, apesar da cor da pele, chegou a ser conselheiro do imperador.

Especialistas em obras viárias, é deles o projeto da ferrovia Curitiba-Paranaguá, entre outras notáveis que marcam a cidade de Curitiba e o Paraná. Não é possível percorrer a capital paranaense sem tropeçar em obras dos irmãos. Em São Paulo, uma avenida das mais importantes leva seu sobrenome, merecido reconhecimento.

Neto de escravos alforriados, Machado de Assis é o maior escritor brasileiro, com sua obra estudada e publicada em todo o mundo. Fundador, e patrono da cadeira número um, da Academia Brasileira de Letras, Machado é nosso grande mestre do Romance e do Conto, com obra respeitada também na poesia e dramaturgia.

Grande tribuno republicano e abolicionista, o farmacêutico José do Patrocínio é um exemplo de jornalista, ativista político e orador. Filho de uma negra mina com o vigário de Campos dos Goytacazes, foi criado como bastardo na fazenda do pai, em meio aos escravos. Trabalhou como servente de pedreiro e com grande esforço ingressou na faculdade de medicina, onde cursou Farmácia.

Frequentou o Clube Republicano, foi colunista político na Gazeta de Notícias e teve grande importância na luta abolicionista e na causa republicana.

Embora fosse filho de ex-escrava, portanto livre, Luís Gama foi feito escravo aos dez anos de idade e permaneceu analfabeto até os 17 anos. Isso não o impediu de se tornar um grande orador e jornalista com participação importante na luta contra o cativeiro.

Maria Joaquina Conceição da Lapa, a Lapinha, representou o Brasil na Europa como cantora lírica para quem o grande compositor padre José Maurício, também descendente de escravos, compôs peças exclusivas. Isso, ainda no Século XVIII.

Os exemplos pululam por toda a nossa história, na qual escritores como Lima Barreto e João do Rio engrandecem e ilustram a contribuição do elemento negro na formação desta nação. Chega a ser ofensivo ao povo afrodescendente a euforia por uma “conquista” profissional inexpressiva diante da exuberante contribuição de segmento tão importante do nosso povo na construção deste país.