17 Out 2019

O Saci e a Bruxa no caminho do Brasil

Por   Qua, 31-Out-2018

Aparentemente, essa discussão tacanha entre Halloween e Saci não passa de uma bobagem. Mas esse “embate” esconde um problema muito maior, é sintoma de uma doença da qual o país padece há décadas.

Ela esconde um fenômeno que nos sufoca e expõe nosso complexo de vira-latas. A culpa é sempre do outro. O de fora. Lá fora estão querendo nos ferrar.

Esse complexo é herança da nossa condição histórica de colônia. As ex-colônias, em geral, conquistaram sua independência via lutas sangrentas, ou no mínimo via rusgas acentuadas. Para se verem livres da antiga metrópole, os países coloniais precisaram estabelecer relações novas, com outras metrópoles que supririam a ausência da antiga. Só que agora com independência política.

 Não passou despercebido o fato de que no campo econômico continuamos dependentes das relações com potências externas. Em vez de ver isso como algo natural, alguns imaginaram que essa posição subalterna nos condenaria a uma situação permanente de inferioridade.

Para enfrentar essa dependência, criamos o mito nacionalista. O mito do desenvolvimento independente. “Somos um país rico, não precisamos de ninguém para crescer”.

Balela, já que os grandes só se tornaram grandes unindo esforço interno com relações fortes no exterior. Por sua posição de potência econômica - e não por sua maldade - tiraram maior proveito dessas relações. Não vimos nisso um exemplo de caminho a seguir (trabalhar duro internamente e relacionamento cada vez em melhores condições com o exterior).

Ao contrário, criamos um modelo que supostamente nos tornaria independentes. Esse modelo só se sustentou até o momento em que a fartura de recursos naturais e agrícolas de exportação (commodities) bancou o sonho.

Os governos usaram o discurso nacionalista para sensibilizar as massas e usaram os recursos obtidos com as exportações para bancar sua permanência no poder. Não cuidaram de usá-los para investir no desenvolvimento tecnológico e social, optando pelo assistencialismo que lhes rendia reeleição.

Com a crise no mercado de commodities, o dinheiro sumiu e o sistema faliu, revelando sua verdadeira face. O mais grave dessa situação é que o modelo torna o povo cada vez mais dependente do Estado, que recolhe uma massa crescente de recursos da sociedade através de impostos para bancar seu populismo distributivista a fundo perdido. Modelo que tira cada vez mais de poucos para sustentar uma legião cada vez maior de assistidos, que cuidarão de os manter no poder.

O mito do desenvolvimento “independente” naufragou num mundo cada vez mais interdependente. Em vez de desenvolvimento autônomo, obtivemos subdesenvolvimento endêmico.

Nossa recusa em fazer acordos amplos e a teimosia ao estabelecer acordos regionais limitados, como o Mercosul, são reflexo disso. Essa condição econômica e esse nacionalismo tacanho condimentaram toda a cultura.

Daí o verde-amarelismo, a exaltação do que é nacional, mesmo sendo uma porcaria. Não se admite crítica ao cinema nacional, nossa música é a melhor do mundo, nosso futebol imbatível, nosso Saci muito mais legítimo do que a bruxa de origem europeia que nos chegou via América.

Na crise, temos de encarar de frente a dura realidade: é gol da Alemanha.