21 Jul 2019

Bolsonaro vê as forças ocultas crescerem ao seu redor

Por   Ter, 16-Abr-2019
Bolsonaro: apego excessivo às próprias ideias Bolsonaro: apego excessivo às próprias ideias

Um princípio básico do regime democrático é que o governante é eleito para fazer não o que ele quer, mas o que o povo quer que ele faça.

Todo político tem seus projetos pessoais, ideais e ideias, mas não pode colocá-los na frente da vontade da maioria. Dessa forma, tende a isolar-se, perder legitimidade e, no limite, o próprio poder.

É o que está acontecendo com o presidente Jair Bolsonaro, cuja opção por seguir apenas a si mesmo colocou para andar a galope um processo de deslegitimação do governo que pode atirá-lo fora do Palácio do Planalto.

É comum que um político faça uma campanha com bandeiras que não eram dele para galvanizar o apoio da maioria. Foi o que fez Bolsonaro, um ex-deputado com ideias nacionalistas, no plano econômico, e um discurso conservador radical, no comportamento.

Com esse perfil, Bolsonaro sempre manteve a fidelidade do eleitorado de extrema direita, o que era o bastante para reeleger-se no Congresso, mas não para vencer uma eleição majoritária no Executivo nacional.

Para ganhar a eleição, Bolsonaro teve de buscar o voto de muito mais gente, que se juntou a ele em segundo turno, pelos mais diferentes motivos. Uns vieram pela simples promessa de seguir o desmanche da era do PT, que ameaçava levar o país à bancarrota e a um autoritarismo de esquerda, cujas asas abriram e foram cortadas quando começaram as manifestações populares contra a então presidente Dilma Rousseff.

Outros apoiadores vieram pela promessa da liberalização da economia, uma bandeira que Bolsonaro encampou, porque vinha também ao encontro do saneamento do Estado e do fim do estatismo populista e paternalista do PT.

Com isso, Bolsonaro formou uma imensa maioria a partir daquele pequeno núcleo que se alinha com ele também na ideologia. Gente que, com ele, compartilha ideias como uma política externa menos globalizante e mais alinhada com os Estados Unidos. Ou uma reforma conservadora do ensino, além de ideias hoje tão extravagantes e sem conexão com a maioria do eleitorado quanto afirmar que não houve ditadura militar.

Bolsonaro colocou em sua campanha fiadores dessa sua mudança em direção ao centro, como Sergio Moro na Justiça e Paulo Guedes - anunciado ministro econômico ainda durante a campanha eleitoral. Adotou também um discurso mais leve em todas as direções - dos quilombolas às mulheres, cujo ativismo é para ele mais uma defesa de privilégios que uma luta por direitos.

No governo, porém, Bolsonaro continua apegado demais às suas ideias para se transformar no presidente que se ofereceu ao país no segundo turno. Com isso, abandonando a maioria, para voltar ao seu pequeno círculo de apoio, ele perde não apenas capacidade de construir alianças ao seu redor, como legitimidade.

Chamado a tomar decisões, ou dizer o que pensa a torto e a direito pelo Twitter, Bolosnaro tem feito sempre a opção pela renúncia à expectativas que foram criadas no segundo turno. Na hora de deixar o mercado definir o preço do diesel, por exemplo, passou por cima de Guedes e mandou a Petrobras suspender o reajuste, como nos governos do PT.

Com essa simples iniciativa, tirou a confiança no rumo liberal esperado pelo mercado e na continuidade de Guedes. No final, como não adianta definir preço por decreto, a intervenção de nada serve, além de apresentar mais um dos já inúmeros recuos do governo.

Na área política, o Bolsonaro do Planalto parece mais o velho Bolsonaro de sempre, com ojeriza de participar de qualquer tipo de aliança que saia do seu cercado ideológico. Está certo ao evitar a negociação de cargos ou esquemas do tipo mensalão, expediente utilizado por seus antecessores, mas isso tem virado um disfarce esfarrapado para sua falta de cintura, que o deixa sem parceiros.

Acabou brigando com o próprio partido, o PSL, depois de defenestrar do ministério o ex-líder do partido e seu colaborador mais próximo na campanha. Mais que demitido, Gustavo Bebbiano foi exposto publicamente e tratado a pontapés, como um Calabar. 

Sem alianças necessárias para fazer passar a reforma da Previdência, cujo trâmite vai sendo arrastado a cada semana, Bolsonaro coloca em risco não apenas o projeto econômico restaurador do Estado como todo seu governo. 

Enquanto isso, ele se agarra ao que sempre foi pequeno, na escala dos interesses populares. Em Ministérios como o do Exterior, dos Direitos Humanos e da Educação, Bolsonaro fez uma opção clara por uma política muito próxima do seu pensamento original. Colocou gente de um conservadorismo alarmante, cujas iniciativas, em muitos aspectos, ferem aspectos da Constituição, como o Estado laico. Na Educação, não apareceu um projeto formador do futuro, apenas um discurso ideologizante.

Bolsonaro continua se definindo como apenas uma reação conservadora ao PT, mantendo seu discurso contra um inimigo que já nem é mais tão real assim. Procura se manter no poder mantendo mobilizada a população contra a ameaça de um certo passado que só o caminho que ele mesmo está trilhando pode devolver ao país.

Mais que habilidade política, é preciso desprendimento das antigas posições para o presidente formar uma coalização nacional em busca de soluções coletivas. Nossos problemas estão a exigir hoje um verdadeiro mutirão político e econômico de toda a sociedade.

Ao brandir o fuzil, e não a bandeira branca, Bolsonaro se afasta daquilo que na realidade o elegeu, para agarrar-se ao velho e pequeno feudo onde passou seus 28 anos de congressista como um náufrago numa ilha ideológica, na qual se tornar presidente era o delírio mais louco.

Bolsonaro não venceu a eleição porque convenceu o país a pensar como ele, da forma que está parecendo, pela direção que vai dando ao barco. As forças de centro e esquerda já perceberam que, se continuar acreditando nisso, o presidente pode inviabilizar todo o governo e o país. E começaram a se armar para, caso Bolsonaro se torne um obstáculo, tirá-lo do caminho, assim como aconteceu com Dilma. É algo já bem real, que vem sendo discutido nos corredores do Congresso.

Bolsonaro pode ficar ainda mais isolado caso, sem capacidade de avançar na economia, venha a perder Paulo Guedes, cuja presença no poder, segundo o próprio ministro declarou, se deve à consecução do projeto liberal.

O presidente tem se isolado também ao afastar-se da cúpula militar do governo, que desejaria uma gestão mais profissional, pragmática e ideologicamente neutra, mas vem perdendo espaço em áreas chave, como a da comunicação. Os militares foram postos de lado também nas indicações para os ministérios "ideológicos", que Bolsonaro entregou para a ala olavista, como é do gosto dos seus filhos e dele mesmo.

Ao adotar o olavismo, Bosonaro se mostra não apenas contra a esquerda, como contra o próprio sistema, a começar por uma defesa do autoritarismo de direita e uma dominação ideológica do aparelho do Estado. É o mesmo que o PT, apenas com o sinal trocado e, conforme apregoa o olavismo, uma linguagem de boteco.

Com isso, de ameaça, os militares hoje aparecem como a opção mais branda, liberal, democrática e institucionalmente estável do governo. Sem eles, Bolsonaro sabe que o governo ruiria no dia seguinte. Com eles, tem agora um jogador de mais respeito fazendo aquecimento no banco, com os comentaristas agitando a mídia e a torcida gritando nas arquibancadas.

Bolsonaro precisa rapidamente voltar a ser o novo Bolsonaro, vestindo o paletó do segundo turno e a faixa de presidente da República. Caso congele no Bolsonaro de sempre, corre o sério risco de virar outro Jânio Quadros.

Eleito com a mesma bandeira do combate à corrupção, Jânio passou o início do seu governo dedicado a uma "moralização nacional". Proibiu rinhas de galo, o biquini e os jogos de azar. Também governava por bilhetinhos, meio de comunicação informal que naquele tempo fazia as vezes do twitter, criando incerteza, insegurança e animosidade entre os próprios colaboradores.

Jânio apostava na popularidade e na sua capacidade de conversar diretamente com a massa, driblando as vias convencionais de comunicação, fossem as do governo ou as da imprensa livre democrática.

Em menos de um ano, sem conseguir governar, paralisado no Congresso e atacado pela imprensa, renunciou. Reclamou de "forças ocultas", que na verdade eram apenas a reação a ele mesmo.

Bolsonaro acredita que pode governar pelo twitter, mas pelo twitter fala apenas com a pequena claque que o segue, não com o país. Usa o Palácio do Planalto para ganhar seguidores, o que é não somente inapropriado como pouco efetivo para quem precisa manter contato com todo o país.

Na prática, voltou a ser o Bolsonaro do primeiro turno da eleição. Agarra-se a uma velha tábua, quando poderia ter se apoderado do navio.

As forças ocultas, que não nada ocultas, já emitiram vários sinais de insatisfação. Elas continuam por aí, especialmente no Congresso. Cada vez que se agarra ao seu circulo ideológico, em vez de governar para o Brasil, Bolsonaro as fortalece.

Há ainda sobre ele uma espada pendurada por um fio, que é seu apoio histórico, assim como de seus filhos, às milícias do Rio de Janeiro.

As atividades desses ex-justiceiros agraciados pelos Bolsonaro no Rio com honrarias oficiais, que evoluíram para uma nova e mais perigosa etapa do crime organizado, são uma sombra permanente sobre o presidente, sobretudo após a morte da vereadora Marielle Franco e o desabamento dos prédios explorados por milicianos na zona oeste carioca.

Para catapultá-lo, basta vir a público uma conexão mais sólida entre os milicianos e Bolsonaro e seus filhos, capaz de comprovar que sua vizinhança com os milicianos não era apenas condominial.

 As forças ocultas da políticas são um círculo de fogo, que se debela com água, em vez de mais fogo. Caso contrário, se fecharão para consumir mais um presidente.