18 Out 2021

Bolsonaro, Lula e a volta do messianismo

Por   Seg, 11-Out-2021

Ambos são acusados de populistas, categoria política que assolou a América Latina entre as décadas de 1930 e 1960 e que teve como seus maiores ícones o ditador brasileiro Getúlio Vargas e o caudilho argentino Juan Domingo Perón.

Contudo, quando estudados à luz de outros conceitos da Ciência Política, chega-se à conclusão de que tanto o atual presidente Jair Messias Bolsonaro quanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva são, na verdade, líderes messiânicos e têm como projetos políticos pessoais instaurar o messianismo no Brasil.

Para uma nação, o messianismo provoca danos mais profundos do que o mero populismo. Pois messiânicos foram os regimes de terror instaurado pelo cidadão Robespierre durante a Revolução Francesa; o do camarada Josef Stalin na União Soviética e, mais recentemente, a Jihad Islâmica do Oriente Médio, que tem no ISIS sua facção mais aterrorizante.

Por óbvio, Bolsonaro e Lula, os principais candidatos à Presidência da República em 2022, não podem ser comparados nem de longe às figuras supracitaDAs de triste memória. Contudo, emergem da mesma matriz daqueles profetas que acenam com a Terra Prometida, transformando política em religião.

Assim, cada um a seu modo, Bolsonaro e Lula mobilizam militantes radicais que acreditam em quaisquer sandices que digam e apresentam-se dispostos a fazer até barbaridades pelo líder.

Foi o filósofo alemão Walter Benjamin que propôs considerar o messianismo como categoria política. Mas coube a seu colega Ernest Bloch, também alemão, dissecar a proposta ao longo uma obra monumental, Princípio Esperança, escrita entre 1938 e 1949, durante o horror da Segunda Grande Guerra, e originalmente publicada nos Estados Unidos entre 1954 e 1959, em três grossos volumes. No Brasil, tem uma excelente edição da Contraponto (2006), com tradução de Nélio Schneider.
Abaixo, cinco conceitos ou ideias sobre Messianismo Político extraídas da obra "Princípio Esperança", de Ernest Bloch.

1 - MESSIANISMO POLÍTICO - É a aliança da vanguarda política com a teologia. A ideia é a de um grupo de vanguarda escolhido para levar a Luz. Esse grupo tem uma missão, uma função que transcende os interesses de um povo. Com Paulo de Tarso, aliança deixou de ser com um povo, o de Israel, e passou a ser com um povo mais amplo, a Igreja. A partir de Marx e Lenin, a aliança passa a ser com toda a Humanidade. Stalin leva o conceito à prática. A Jihad Islâmica também, por outros caminhos. No Brasil, temos o PT, o PSol e outros puxadinhos; os políticos evangélicos e, mais recentemente, Bolsonaro e o bolsonarismo, todos eles se apresentando como legítimos portadores do facho de luz.

2 - O PROFETISMO - É típico das religiões messiânicas. Há homens que vão na frente. Não representam a si mesmos; são “mediadores”, “anunciam”. O profeta é simultaneamente: profeta, chefe militar, chefe político, chefe religioso, chefe legislador e julgador, tudo numa só pessoa. Messianismo está intrinsecamente vinculado à ideia de Vanguarda. Profeta messiânico é o próprio Deus feito Homem, apontando o caminho para a Terra Prometida. Lula é o que tínhamos de mais próximo a um Profeta a apontar o caminho para a redenção social. Até que apareceu seu antípoda, Jair Messias Bolsonaro.

3 - VANGUARDA - Século 18 trouxe novas cartas semânticas. Conceito de Civilização: define estágio dos povos, um superior ao outro, comparação e hierarquização das culturas. Também o conceito de "vanguarda" que traga a redenção de um grupo inferior. Palavra vanguarda é posterior. Na época, ideia de quem vai á frente levando um "facho de luz". Por isso Iluminismo. Durante o regime militar de 1964, as organizações da luta armada se autodeclaravam “organizações de vanguarda”; algumas chegavam a inserir a expressão no nome, como a Vanguarda Popular Revolucionária, do capitão Carlos Lamarca. A partir da década de 1990, com a ascensão do PT, a expressão foi sendo substituída por “progressista”.

4 - REVOLUÇÕES - O fundamento revolucionário é acelerar o metabolismo social partindo da premissa de que a História tem uma direção, um “fim”, e que é preciso dar um jeito para o “fim da História” chegue mais cedo. Quando radicaliza com sua guilhotina, Robespierre declara: “É preciso acelerar a História”.

5 - FÉ CEGA, FACA AMOLADA - Hannah Arendt, em "Origens do Totalitarismo", classificou as Organizações de Vanguarda que sustentaram o comunismo, o fascismo e o nazismo de "seitas esotéricas". Criam realidades paralelas, sustentadas pelo maniqueísmo. "Nós somos a verdade, o caminho e a luz"; "quem não está conosco está contra nós"; "se nós somos a luz, os outros são as trevas". "A Luz precisa extirpar as trevas"...

Assim se comportam tanto Bolsonaro quanto Lula, apresentando-se como a verdade, o caminho e a luz; criando realidades paralelas sustentadas em narrativas maniqueístas e estimulando seus militantes, supostos portadores da luz, a combater e extirpar as trevas.
Dentro do lulismo, vez por outra emergem ações carbonárias dos Black-Blocs ou militantes ensandecidos, como um professor da Universidade de Brasília que pregou abertamente a degola e decapitação dos adversários liberais (que ele chama de direita).

Do bolsonarismo, a toda hora também aparecem subcelebridades como a militante Sara Winter querendo incendiar algum prédio público. Vale lembrar que, em setembro passado, o nível de radicalização foi tamanho que um grande grupo de caminhoneiros se mobilizou com o objetivo de cercar e fechar o Supremo Tribunal Federal.

Para agravar o quadro, temos ainda a ascensão das seitas evangélicas na política, sempre com suas pregações sectárias e na busca pela instauração de uma “Guerra Santa” – a nossa própria Jihad.

Todos esses exemplos, de um lado ou de outro, representam a ascensão do Messianismo Político no Brasil – ainda em sua forma mais amena. A esperança é que, até outubro de 2022, apareça um candidato que restaure a velha e boa escola weberiana, que deseja a política dentro dos limites da racionalidade.