21 Jul 2019

Bolsonaro fica com cara de Jânio Quadros

Por   Qua, 27-Mar-2019
1961: coincidência é pouco 1961: coincidência é pouco

Era uma vez um presidente que se elegeu com promessas de acabar com a corrupção no Brasil. Entrou no governo com enorme apoio popular. Governava mandando recadinhos informais para politicos e colaboradores do governo, preterindo a imprensa e os meios oficiais de comunicação. Sem conseguir passar nada no Congresso, onde bateu recordes de rejeição, seu governo ficou paralisado.

Você pode achar tudo isso muito contemporâneo e familiar, mas estamos falando de Jânio Quadros, no ano de 1961. Dono de um estilo controverso, com seus famosos bilhetinhos, a versão da época do Twitter, Jânio conseguiu rapidamente construir uma parede de oposição no meio político e dentro da sua  própria administração, criando desafetos por todos os lados.

Acabou renunciando, na esperança de que o clamor popular o fizesse voltar de novo ao governo e com mais força para impôr-se diante do Congresso.

O golpe de Jânio não deu certo. A renúncia, como gesto unilateral, foi simplesmente aceita. Jânio foi embora, deixando no seu lugar o vice, João Goulart, liderança do PTB, com uma plataforma de governo completamente diferente da sua.

Em dois anos, Jango, que não era para ter sido, foi derrubado. Começou então em 1964 o regime militar - história que vai muito bem contada no livro de Paulo Markun e Duda Hamilton, "1961: o Brasil Entre a Ditadura e a Guerra Civil".

Jânio era um moralista e um político populista conservador como Jair Bolsonaro. Criticava os desmandos da era de Juscelino Kubitschek, que, junto com a construção de Brasília, deixou o governo num período conturbado pela quebra do caixa e denúncias de corrupção. 

Promoveu embates moralizadores, como Bolsonaro. Poibiu o biquini, a rinha de galo e amistura d eprodutos nos supermercados.“Secos junto com molhados, nem por cima do meu cadáver”, afirmou.

Perdido nessas coisas, foi se enfraquecendo. Acreditava que sua ligação direta com o povo lhe daria caminho fácil no Congresso, mas aconteceu o contrário. Ao ignorar a igualdade dos poderes, e desmoralizado na sua campa ha moralizadora, sua rejeição cresceu, exacerbada pelo estilo personalista e autoritário. Caiu em prazo recorde. Ficou no poder apenas sete meses.

Ao votar em sessão-relâmpago a PEC do Orçamento, um projeto que visa congelar as ações do Executivo, colocando sob seu poder o Orçamento da União, a Câmara manda ao presidente Bolsonaro uma mensagem. Caso o projeto seja aprovado também no Senado, que já lhe deu sinais de boa acolhida, o presidente na prática já não mandará no país no ano que vem.

Com a popularidade em queda, num governo que patrocina crises diárias, em pouco mais de três meses Bolsonaro conseguiu perder legitimidade e está perdendo, na prática, o poder.

Se não realizar um esforço de mudança, que não se resume a mandar ministros fazerem embaixadas, mas assumir ele mesmo outro comportamento, Bolsonaro terá então duas opções. Ficará quatro anos no Planalto sendo humilhado, com risco de impeachment no meio do caminho, ou renuncia, abrindo caminho para que o país volte a ter governo.

O presidente já avisou que não pretende mudar, cedendo a apelos do que considera a "velha política". "Não quero jogar dominó com Lula e Temer no xadrez", disse ele. Como deputado, de fato, sempre viveu relativamente isolado, sem misturar-se, como recomenda o conservadorismo purista de Olavo de Carvalho. Segue assim, como presidente.

Bolsonaro parece pouco apegado ao poder. Caso saia, não haverá um vice de esquerda para preencher a vaga. Desta vez, ela acomodará diretamente um militar, o vice Hamilton Mourão.

Com a diferença de que dessa vez os militares não estariam no poder por meio de um golpe, ou de uma revolução, como o próprio Bolsonaro prefere chamar o movimento de 1964. Chegarão ao poder pela via constitucional, eleitos pelo povo junto com Bolsonaro, e muito provavelmente com o apoio do Congresso Nacional.

A PEC do Orçamento ainda pode ser detida no Senado, mas o recado do mundo político a Bolsonaro é que, como está, não ficará. O presidente não aceita o fato de que se ganha a eleição de uma forma, mas se governa de outra. E está pagando o preço muito rápido. A crise ganhou celeridade maior que a da segunda gestão de Dilma Rousseff. Caso se mantenha encastelado, acreditando que governará pelo Twitter, o presidente será emparedado.

Bolsonaro, hoje, vai ficando com o bigode de Jânio. A situação lembra a velha máxima de Karl Marx no 18 Brumário, segundo a qual a história se repete: na  primeira vez como farsa, a segunda como tragédia. A renúncia de Jânio foi uma farsa. Bolsonaro é candidato à tragédia, não apenas pessoal, como a de um país que não consegue estabilidade no regime democrático.