24 Abr 2019

Bolsonaro é também uma ideia

Por   Qui, 07-Fev-2019
O presidente: complicações O presidente: complicações

Quando foi preso, o ex-presidente Lula disse que não adiantava ser isolado no cárcere, pois ele hoje em dia não seria mais um político, seria uma ideia. De fato, durante a campanha eleitoral, e mesmo depois, Lula continua a ser, da cadeia, o líder da esquerda mais à esquerda no país.

Pelo lado oposto do espectro ideológico, o mesmo ocorre com o presidente Jair Bolsonaro.

Bolsonaro venceu a eleição quase ausente do cenário. Com a facada em Juiz de Fora, ganhou a eleição do hospital, mesmo correndo risco de morte. Não fez campanha de rua, não foi a debates e suas duas entrevistas ficaram restritas a uma única rede de TV.

Ainda assim, ganhou força. A vontade de mudança em torno de certas metas coletivas dispensou até mesmo sua participação. Bastou a ele representá-las.

Agora, Bolsonaro começa seu governo como terminou a campanha eleitoral: é uma presença virtual. A recuperação da cirurgia, com alta inicialmente prevista para algo entre sete e dez dias, já entrou na segunda semana e chegará pelo menos à terceira.

Do hospital, Bolsonaro assinou documentos, chegou a ter conversas por telefone, mas o governo tem seguido sem sua presença física.

Dessa forma, ele também vem se transformando mais em uma ideia que em uma pessoa. Conseguiu reunir do seu lado um amplo espectro político, que vai do eleitorado conservador, incluindo a ala da direita radical, até o eleitor quase apartidário que queria apenas expurgar a corrupção de Brasília e ver de volta o crescimento econômico, não importa a coloração ideológica do presidente.

Com isso, assim como Lula, foi além da sua pequena claque para ser uma ideia também mais ampla. Dentro das balizas da austeridade e do progresso, Bolsonaro aglutinou as bandeiras liberais, além do seu nacionalismo tradicional, pegando para si o discurso de outros concorrentes a adversários do passado petista.

São essas ideias que ele representa que estão sendo levadas adiante pela equipe de governo.

A liberdade econômica, o combate ao crime e outras boas ideias apoiadas pelo eleitorado vão se tornando mais visíveis e importantes que o próprio líder, descolando-se somente da sua pessoa para se tornarem um norte programático do país e para o país.

Em nossa história, excessivamente baseada no personalismo, que em geral descamba para o populismo demagógico, não deixa de ser um surpreendente avanço.

Depender somente de uma única figura, sujeita a erros, por vezes ao mercurialismo e, eventualmente, a incidentes, em geral é perigoso.

Por experiências anteriores, sabemos ser preferível depender de ideias, propostas, projetos políticos. Bolsonaro sabe que não governa sozinho e nem precisa. É melhor assim.