23 Jul 2019

A dura fala do general pode ter qualquer direção

Por   Dom, 16-Jun-2019
Heleno: batendo na mesa Heleno: batendo na mesa

Chamou a atenção a participação do general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, no último café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto, promovido pelo presidente Jair Bolsonaro.

Depois de Bolsonaro lamentar uma entrevista dada por Lula na cadeia, na qual o ex-presidente insinuou que a facada em Juiz de Fora poderia ter sido uma armação, Heleno tomou a palavra e fez um discurso inflamado, chegando até mesmo a bater na mesa.

"A presidência da República é uma instituição sagrada", afirmou Heleno. "[...]Um presidente da República desonesto tinha que tomar uma prisão perpétua. Isso é uma canalhice típica desse sujeito. [...] Eu tenho vergonha de um sujeito desse ter sido presidente da República."

A dura fala do general, recheada de genuína indignação, é também perigosa. Não por conta de Lula, mas pela defesa, em si, da Presidência como instituição "sagrada", diante de um presidente também sob suspeita.

O que diriam Heleno e outros militares do Planalto caso fosse confirmada, por exemplo, a ligação de Bolsonaro com a milícia do Rio de Janeiro. Ou uma participação dele na "rachadinha" promovida no gabinete do filho Flávio, no Rio de Janeiro?

A questão tem deixado de ser apenas um exercício teórico, ou uma provocação. O próprio Bolsonaro, em entrevista à revista Veja, afirmou que é sua a relação com Fabrício Queiroz, operador do dinheiro vivo depositado no gabinete de Flávio. Companheiro de Bolsonaro desde os tempos de paraquedistas do Exército, Queiroz é o autor dos depósitos de pelo menos 24 mil reais identificados nas contas da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, que o presidente disse terem sido para si.

Para trabalhar no gabinete de Flávio Bolsonaro, foi Queiroz quem contratou duas parentes do capitão Adriano, chefe do "Escritório do Crime", milícia que faturava com o mercado imobiliário no Rio. Justamente o tipo de negócio que inflou o patrimônio de Flávio.

A polícia descobriu que parte do dinheiro depositado nas contas de Queiroz era envelopado em duas agências do banco Itaú, na mesma rua em que ficam dois restaurantes do Capitão Adriano, no Rio. Adriano, hoje foragido da Justiça, é morador do mesmo condomínio que o presidente, na Barra da Tijuca. É muita coincidência para ser ignorada pela investigação policial.

A polícia relacionou ainda 86 pessoas que depositavam dinheiro para Queiroz, incluindo parentes da ex-mulher de Bolsonaro, Ana, no escândalo da "rachadinha" -  contratação de funcionários fantasmas para repassar seu salário de volta ao empregador.

Ainda que não tenham sido ligados todos pontos, especialmente uma prova cabal da ligação de Bolsonaro com os milicianos, o presidente já sofre do mal de Júlio César. Segundo o ditado sobre o imperador romano, não bastava à mulher de César ser honesta: ela tinha de parecer honesta. E Bolsonaro acaba tendo sua imagem afetada pela proximidade com algo até pior do que a corrupção do PT e do MDB.

O caso da mulher de César faz perguntar se o presidente passaria pelo crivo moralista que ele utiliza para deslustrar oponentes, a começar por Lula, e até mesmo colaboradores. Ao demitir ministros e outros funcionários, para rechear o governo com discípulos de assessor ideológico, Olavo de Carvalho, Bolsonaro contraria o princípio técnico que ele prometeu utilizar nas contratações do governo.

Dessa forma, Bolsonaro vai se candidatando a vítima de seu próprio discurso de tolerância zero. No mínimo, tem jogado contra ele mesmo todas as forças que desafia e que podem usar qualquer pequeno desvio para derrubá-lo.

Aí volta a pergunta: o que os militares fariam, caso as denúncias contra Bolsonaro se agravem ou avolumem? Como fica a defesa da paz institucional, quando é o próprio presidente quem a desestabiliza? E se, como no caso da escuta no celular do ministro Sérgio Moro, os investigadores e autoridades constituídas passarem a ser os investigados?

Um duro dilema para o general, com certeza um homem honesto, desses que colocam o patriotismo acima de tudo, e que tem empenhado sua reputação na defesa de um presidente cujo passado vai se somando ao presente na transformação de seu futuro em uma incógnita.