6 Jun 2020

Autoritarismo multicor

Por   Seg, 04-Mai-2020

Saiu a esquerda, entrou a direita. E a imprensa continua apanhando

O presidente Jair Bolsonaro sorri e jornalistas são agredidos no Planalto. Em mais uma demonstração de falta de apreço à democracia, o presidente participou de manifestação que sob o pretexto de apoiá-lo fazia apologia da ditadura e pedia intervenção militar, com fechamento do Congresso e do STF.

Como tempero do desatino, o presidente desrespeitava as orientações das autoridades sanitárias mundiais e de seu próprio governo e se misturava aos populares, abraçava crianças, dava a mão a admiradores e conversava muito próximo das pessoas sem usar máscara. Ao mesmo tempo, seus seguidores espancavam jornalistas.

Não satisfeito com o espetáculo patético, fez ameaça velada às instituições que tentam limitar seus destemperos. “Cheguei no limite”. Na verdade, ele está muito preocupado com o depoimento do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro à Polícia Federal. Dali poderia sair o ingrediente que falta para enquadrá-lo em crime de responsabilidade.

As vivandeiras que lá estavam têm batido às portas dos quartéis pedindo a volta do regime militar. Adoram o autoritarismo, sonham com ele, ao mesmo tempo que reclamam das regras de contenção da epidemia, que limitam sua liberdade de ir e vir.

Incoerência é o forte dessa gente. Uma característica difere esses amantes de ditaduras dos marchantes com da família com Deus pela liberdade dos anos 60. Aqueles eram carolas católicos. Os de hoje, em boa parte, são neopentencostais de variadas denominações, unidos pelo duplo fanatismo: político e religioso.

O fanatismo político é criminoso. Somado ao fanatismo religioso, é uma barbaridade. Circula nas redes o vídeo de uma evangélica fanática tentando quebrar a pauladas a santinha postada num nicho na fachada da casa de um católico. Impedida pelo morador, a fanática investe de pau contra ele.

Tem sido frequente a destruição de templos de matriz africana, no Rio de Janeiro. E nessa empreitada os fanáticos têm contado com o luxuoso apoio de ninguém menos que os traficantes das favelas e periferias do Rio, convertidos por pastores que dizem pregar “a palavra”. Ou seja, o evangelho. Barbarizam em nome de Deus.

É um caldo de cultura que vai se formando para transformar um país multicultural e tolerante num ambiente de violência e intolerância. É bom ver que setores amplos do arco político-ideológico nacional vem reagindo a essas manifestações de violência política e religiosa. Mas não podemos nos esquecer que muitos democratas de hoje estavam ontem mesmo tentando nos controlar, fazendo do Brasil uma nova Venezuela.

Também há os que se calavam quando os “bolsonaristas” de esquerda mandavam opositores para o hospital e agrediam até com mais violência os jornalistas. Desde as greves do ABC os radicais de esquerda atacam a imprensa. Foi lá que surgiu o slogan “O povo não é bobo, abaixo a rede Globo”. A mesma rede de televisão tão atacada pela direita hoje.

Há pouco tempo esquerdistas mataram um fotógrafo no Rio e quase mataram um empresário em São Paulo. E por muito tempo o governo de esquerda tentou de todo modo controlar a imprensa. O que também é violência.

Quando vejo essa gente se mostrando indignada agora só posso pensar em hipocrisia. Os extremos se tocam. Esses verde-amarelos de agora são os vermelhinhos de ontem.