17 Out 2019

Abusos, mordomias e desfaçatez

Por   Seg, 16-Set-2019

Os podres poderes da República vilipendiada

O procurador Leonardo Azeredo dos Santos, de Minas Gerais, chocou a nação em desabafo feito numa reunião com colegas na qual se queixou do miserê em que vive com seu salário de 24 mil reais, no país onde a média salarial é de 2,3 mil.

“Estou deixando de gastar 20 mil de cartão de crédito e estou gastando 8 mil. Pra poder viver com os 24 mil. Eu e vários outros já estamos vivendo à base de comprimido, à base de antidepressivo”, desabafou o pobre coitado.

No dia seguinte ao vazamento de seu desabafo na internet, soube-se que no mês anterior, com uma série de vantagens, ele recebera mais de 90 mil.

O procurador geral do estado Antônio Sérgio Tonet, recebeu dez reclamações contra o funcionário, encaminhadas à Corregedoria-Geral do Ministério Público para que fosse “avaliada irregularidade ou desvio de conduta”.

Diante do escândalo que causou, o procurador saiu de cena, tirou licença médica e não se manifestou sobre a repercussão de seu desabafo.

O destempero do procurador mineiro expõe uma realidade que pode muito bem explicar a situação na qual se encontra o Brasil. Neste país, o Estado está a serviço de uma elite do funcionalismo e a nação paga a conta.

O deputado federal Pedro Cunha Lima fez um pronunciamento na Câmara criticando os abusos cometidos - dentro da lei - nos três poderes da República. Ele informou, indignado, que o STJ patrocinará uma reforma de mais de 700 mil reais na casa de um de seus ministros.

Na reforma modesta está incluído um novo ar condicionado, no valor de 35 mil, uma piscina aquecida por célula solar e churrasqueira. Ainda no Judiciário, as coisas vão mais longe. Cunha Lima citou o exemplo do juiz de Mato Grosso que recebeu mais de 500 mil em um mês, entre salário, “indenizações” e outros penduricalhos.

O deputado notou que no legislativo as coisas não são diferentes. Para ilustrar, citou apenas um absurdo: a Câmara paga auxílio mudança até para deputado reeleito, que já mora em Brasília. E citou o Ministério Público Federal, cujos procuradores, como aquele mineiro insatisfeito, têm direito a auxílio creche, mesmo recebendo acima de 20 mil por mês. Afirmou que no Palácio do Planalto há mais funcionários que na Casa Branca. Ele disse muito mais, mas não disse tudo.
Deputados estaduais recebem auxílio paletó, vereadores trocam a frota de carros a cada três anos, ministros do Supremo são abastecidos com champanha, lagostas e outras iguarias.

É como se estivessem participando do último baile do Império, já que a velha ordem parece estar-se esgotando às vésperas de um fogo rasteiro de indignação emanado da população empobrecida que paga tantas regalias.

Ao mesmo tempo um projeto que deve ser aprovado na Câmara flexibiliza a forma de prestação de contas dos partidos políticos abrindo brechas para a utilização do caixa dois.

Não bastam os bilhões do Fundo Partidário. Só para as eleições municipais do próximo ano estão pleiteando 3,7 bilhões do financiamento público de campanhas.

Mas esse banquete da aristocracia dos servidores públicos não se estende aos batalhões de funcionários que dão o sangue pela carreira. Não atinge professores, médicos e agentes de segurança, que, estes sim, estão enfrentando o miserê. Não premia os barnabés do funcionalismo, que lidam com o público e diariamente enfrentam sua fúria, causada pelos péssimos serviços pelos quais não têm culpa.

A desfaçatez com que essa elite arrogante se lança babando sobre o erário não encontra similar em democracias dignas desse nome. Aparentemente, no pais do salário mínimo de 998 reais, as coisas não se ajeitarão sem loucura e derramamento de sangue. Incrédulo, o cidadão está a ponto de embarcar em alguma aventura que ponha cobro nesses descalabros.

Depois não vai adiantar chorar sobre o leite derramado.