30 Mar 2020

Doença infantil

Por   Qua, 20-Nov-2019

A volta do sarampo, da cachumba e do esquerdismo

O esquerdismo venceu. Está em toda parte, sempre defendendo soluções fáceis para problemas complexos e se metendo em assuntos sobre os quais não tem a mínima ideia de solução. Como recurso: gritos e palavras de ordem. Nada em economia política é simples. E as ideologias pouco fazem para simplificar as coisas, quando não as complicam ainda mais.

Não é de hoje que no âmbito governamental - seja qual for o embate no campo de luta das classes e estamentos sociais - as opções reais podem ser reduzidas às quatro operações e, para sofisticar um milímetro, à regra de três. Resumindo: se a arrecadação é de 100, você só tem 100 para gastar. O que passar disso é déficit, gera inflação, endivida o Estado, corrói a economia e ferra a sociedade.

Diante deste cenário básico, esquerda, centro e direita só têm a discutir e disputar algo comezinho: mais benefícios sociais igual a mais impostos e/ou diminuição do custeio da máquina estatal (o que em alguns casos pode ser impraticável). Menos impostos, igual a menos benefícios sociais, sempre com tentativas de contenção dos gastos com a máquina estatal. Nada foge disso. Discutir mais valia, salário, preço e lucro fica parecendo enrabação de mosca, diante dessa realidade.

Não é à toa que a luta dos partidos de esquerda reformistas, como o Trabalhista inglês, de Jeremy Corbyn, foca sua campanha para o Parlamento na luta contra os cortes em gastos sociais. A estes, contrapões a restrição dos gastos militares. Ou seja, para gastar num benefício é preciso tirar dinheiro de algum lugar. E esse lugar não é o tesouro, que não gera riqueza, só recolhe da sociedade.

Se a conta de Corbyn fecha, eu não sei. Mas seu partido fustiga o legado liberal de Margaret Thatcher e quer recolocar o Estado no papel de provedor dos mais pobres. Trata-se de ação e reação. A social-democracia criou o paraíso na terra com os recursos arrecadados em abundância dos pagadores de impostos. Os tempos das vacas gordas se foi e o Estado do bem-estar social foi pras cucuias. Os conservadores (em política) vieram para dar um choque liberal ( em economia).

O imperativo é botar as contas em ordem. O cobertor ficou curto. Cobre a cabeça, os pés ficam de fora. Então é preciso equilibrar, e ideologia não tem nada a ver com isso. Ou seja, o papel da esquerda hoje é lutar por mais benefícios sociais, mas tem de dizer de onde virão os recursos. Se não fizer isso, ao chegar ao governo terá dificuldades para cumprir suas promessas de campanha.

A equação é simples e é em torno dela que deve ser travada a luta da esquerda à direita. O grande problema é a volta das doenças ideológicas, que assim como o sarampo e a cachumba voltam sempre por falta de uma vacinação eficiente.

É a mazela denunciada por Lenin em 12 de maio de 1922: o esquerdismo. Ao publicar o livro “Esquerdismo: doença infantil do comunismo”, o líder da Revolução Russa atacava os radicais alemães e ingleses, que andavam desdenhando a importância do partido como agente central da revolução. Lenin preconizava a necessidade de os comunistas atuarem de forma organizada nos sindicatos, fazer acordos e assumir compromissos com partidos reformistas, como o Trabalhista inglês.

Alguma razão aquele filho do capeta tinha, pois hoje as pesquisas indicam que os seguidores de Corbyn estão em segundo lugar, logo atrás dos conservadores, e detêm 29% das intenções de voto no pleito que se aproxima. Em aliança com outros partidos podem chegar ao poder, indicando primeiro-ministro, o próprio Corbyn. Os teimosos comunistas ingleses, ou o que restou deles, ostentam um redondo zero na pesquisa.