6 Jun 2020

A verdadeira base de apoio começa a ruir

Por   Sáb, 23-Mai-2020
Marinho: criador volta-se contra criatura Marinho: criador volta-se contra criatura

A delação do empresário Paulo Marinho, cujo depoimento à Polícia Federal indica que os Bolsonaro sabiam antes da deflagração da Operação Furna da Onça, é mais importante do que simplesmente acrescentar um dado relevante às investigações sobre a tentativa do presidente de proteger-se de forma indevida, seja na corrida eleitoral, seja dentro do governo.

Marinho foi um colaborador fundamental de Bolsonaro, não só por colocar sua casa como quartel-general político na corrida eleitoral, como pela sua participação na inteligência de campanha e no aliciamento de apoio empresarial.

Representa o grupo de empresários que apostou em Bolsonaro, como garantia de que o Brasil não voltaria atrás, devolvendo o poder a Lula e o PT. Bolsonaro foi seu trunfo para garantir ganhos passados, que poderiam ser cobrados de volta num novo governo populista de cunho socializante, agora que o Estado brasileiro se encontra na penúria, após a enorme transferência de recursos para o setor privado pelo estímulo ao consumo.

Ao voltar-se contra o homem que ajudou a inventar, a clássica história do criador tentando controlar a criatura, Marinho indica que a verdadeira base de apoio ao presidente - a elite predatória que colocou Paulo Guedes como garantia de que ele cumpriria os termos do acordo para sua eleição - está abandonando o barco.  Essa, sim, é uma má notícia para o presidente.

Há várias razões para que os emrpesários se sintam insatisfeitos com Bolsonaro. O primeiro é que o comportamento dele na presidência vai destruindo o país - e nenhum ganho empresarial está garantido dessa forma.

As circunstâncias da pandemia ajudaram a dinamitar o projeto de Guedes. Pior: com o Covid, Bolsonaro passou a usar a apostar no caos para fomentar seus sonhos autoritários pessoais. E ninguém sabe o que pode sair desse cenário. Ao ver que Bolsonaro está fugindo da coleira, o jeito é substituí-lo por alguém mais confiável.

Seria melhor se o movimento para remover Bolsonaro partisse de uma elite iluminista, que entende a idependência da educação, da liberdade e da democracia para o progresso econômico. Ainda mais em tempos em que o valor não está mais na detenção de meios de produção, mas na posse doa tecnologia e do conhecimento. E que entendem o dano causado por um presidente obscurantista, no que toca a educação; abusador, no que diz respeito aos limites do poder; e danoso, do ponto de vista do progresso.

Porém, não é nada disso. Esses sonhadores de uma nova civilização brasileira são poucos e sucumbem diante da sanha sem limites da elite predatória. Esta pensa somente em si mesma, sem considerar que o bem coletivo poderia ser ainda melhor para todos, inclusive ela. Esses são, na verdade, os que decidem: os que influenciam o Congresso, sequestram o poder público e manipulam a Nação.

O que pode mudar o país não são as ideias, nem os ideiais, ou mesmo a Justiça com relação a Bolsonaro, e sim o fato de que esses interesses passaram a ser contrariados. E, no Brasil, essa é a sentença de morte para um presidente. Dilma Rousseff que o diga.

A elite brasileira conserva muito da herança dos velhos capitães do mato, que levavam índios escravos em gargalheiras e lhes cortavam a cabeça quando cansavam, para não atrasar a marcha. Por isso, conforme mostro em A Criação do Brasil, somente dois em 10 prisioneiros chegavam ao seu destino, o porto de escravos de Santos. no Século XVII, não faz tanto tempo assim.

É esse o sacrifício que se pede hoje ao povo brasileiro, colocado diante da perspectiva da morte pela exposição ao vírus, para que a máquina da riqueza de uns poucos continue a funcionar. A morte de alguns milhares, possivelmente centenas de milhares, é o Brasil de sempre a continuar.

Alinhado com esses interesses, Bolsonaro tem feito o discurso da volta ao trabalho. Porém, mesmo a elite interessada em fazer a máquina se mover está percebendo que será contraproducente se no Brasil as pessoas morrerem mais e a pandemia perdurar mais, uma vez que sem o isolamento social vai demorar também mais para surgir a luz no fim do túnel. Essa é a diferença entre Bolsonaro e João Dória, que saiu diretamente dessa elite que o levou ao poder em São Paulo, junto com Bolsonaro na cena nacional.

A pandemia não mudou, no Brasil, o essencial. Este país está destinado mais do que nunca a ser a vítima da selvageria de sua elite e da classe política, cuja função principal é manipular a população e o serviço público para atender a interesses de grupo.

 O resultado disso é uma estrutura institucional frágil, sujeita aos temporais na economia, casuísmos de conveniência e delírios de poder. Presa fácil para crises imprevistas, mas com as quais sempre se deveria contar. Esta é a realidade do Brasil, um país fraco, selvagem, mais perto do passado que do futuro, desapontamento de uma geração que lutou para vê-lo democrático, justo e próspero.

E liderado por títeres de nível muito baixo. Isto é: à altura tanto de um povo carente de educação, quanto de uma elite desprovida de escrúpulos, na mesma proporção.