2 Jul 2020

A última ceia do governo Bolsonaro

Por   Dom, 03-Mai-2020
Bolsonaro com seus 22 apóstolos iniciais: um "Judas" no meio Bolsonaro com seus 22 apóstolos iniciais: um "Judas" no meio

O presidente Jair Bolsonaro chamou seu ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, de "Judas". Como dizem as escrituras, Judas era o apóstolo favorito de Jesus, mas justo esse foi também aquele que o traiu. Não se sabe se Moro irá se arrepender, como Judas, que se enforcou. O presidente, porém, já tem a sensação de que está sendo enviado para a cruz.  

Moro prestou no sábado passado oito horas de depoimento à Polícia Federal, o órgão que estava sob seu próprio comando, e foi pivô do seu pedido de demissão. Fez o ex-chefe cair num alçapão.

No depoimento, segundo o próprio Moro, ele entregou a sua comunicação por WhatsApp com Bolsonaro, na qual este estaria querendo mudar a chefia da Polícia Federal para interferir ou obter informações indevidas. Isto porque a PF investiga negócios do ex-assessor do presidente, Fabrício Queiroz, no gabinete do filho Flávio. Além da participação de outro filho, Carlos, na criação de uma indústria de fake news para favorecer o pai.

Assim, a própria PF investiga como o presidente queria interferir na PF, com ajuda de Moro e respaldo do STF. Dilma Rousseff também tentou mudar o diretor geral do órgão para interromper as circunstâncias que a levariam ao impeachment, mas igualmente apenas mexeu num vespeiro mortal.

Ao tentar tolher o trabalho da PF, o presidente aciona o espírito de corpo de uma instituição pouco afeita a pressões e que reage mal a quem tenta lhe botar medo. Os delegados da PF ganham bem, têm bom nível técnico, possuem grande orgulho profissional  e ganharam status de heróis nacionais graças justamente à Lava Jato, à frente da qual estava o próprio Moro, como juiz, ainda em Curitiba.

Como se vê pelo comando enviado aos militantes bolsonaristas, o presidente rapidamente teve de mudar de alvo político. Do dia para a noite, esqueceu Lula, o PT e a ameaça da "esquerdalha". Passou a atacar o "Judas".

Moro agora é a principal ameaça porque, além de ter levado adiante as investigações que os integrantes da PF devem conhecer internamente muito bem, agora coloca Bolsonaro na mesma posição de Lula, dos seus novos aliados do Centrão e outros investigados da Lava Jato, que a maior parte da população identifica como a causa dos nossos males.

Moro tem o condão de, ao sair do governo atirando, tornar Bolsonaro o verdadeiro Judas - o traidor dos princípios com os quais se elegeu. Ao responder ao presidente que "há lealdades maiores que as pessoais", lembra seu compromisso número 1 de combater a corrupção. E joga o ex-chefe na vala comum. Com Moro no governo, Bolsonaro combatia os corruptos. Ao colocar Moro para fora, viu-se de repente tendo que passar para a a defensiva, justificando seus malfeitos.

Ninguém sabe o que Moro quer fazer do seu próprio futuro, além da pronta disposição em colaborar para a investigação do presidente a quem tinha decidido servir. Ninguém acredita que ele era ingênuo ao acreditar numa prometida "carta branca" de Bolsonaro, ao aceitar o convite para ocupar a pasta da Justiça. E deve saber também o que está fazendo agora. Não está obrigado a agir contra seus princípios, quando a ocasião se apresenta. 

Enquanto Bolsonaro vai se aproximando do seu calvário, Moro constrói uma nova ponte dentro da política. Tendo Lula de um lado, Bolsonaro de outro, ele se reafirma como o homem que combate à corrupção, venha de que lado vier, no espectro político.

Além da sua grande popularidade, que ele já tinha, a oposição ao presidente faz dele um sério candidato em 2022, tendo por trás os milhões de brasileiros que voltaram em Bolsonaro no segundo turno apenas por rejeição ao PT -  sem nunca ter gostado muito dessa opção. Não é pouca gente.

Moro, porém, tem muito o que fazer, se quiser ser presidente de verdade. Não basta levar adiante a tarefa de demolir Bolsonaro, como já fez com Lula, da sua poltrona de couro negro em Curitiba. No ministério, ele viu como a rejeição dos políticos associados ao fisiologismo, alvos da Lava Jato, ainda é uma barreira intransponível para qualquer coisa que ele queira levar adiante e que dependa do Congresso.

Para poder mudar o país, ele teria não apenas de eleger-se a bordo de um partido disposto a combater o status quo - e há poucos assim-, como capaz de ajudá-lo a construir uma sólida base parlamentar, que permitisse reformas mais profundas, no sentido de acabar com a corrupção. Essa é, infelizmente, uma condição indispensável para criarmos no país o ambiente de estabilidade e racionalidade para a retomada do crescimento sustentável e de uma certa pacificação social.

Essas reformas começam pela reforma eleitoral e seguem por uma reforma política que elimine muitos dos privilégios da classe política. É difícil para o parlamento legislar contra os próprios interesses, exceto a bordo de um movimento popular que não apenas eleja o presidente como lhe dê sólida maioria parlamentar.

É uma missão hercúlea. Porém, se existe alguém capaz de aglutinar forças políticas num bloco majoritário, arrostando os interesses de legendas dirigidas por vendilhões do templo e outros sequestradores do poder público, esse alguém hoje é Moro.

E ele parece saber disso muito bem.