23 Jul 2019

A tentação populista

Por   Qui, 23-Mai-2019
Bolsonaro e o povo: governo não faz manifestação de rua Bolsonaro e o povo: governo não faz manifestação de rua

Governo democrático não põe o povo na rua para pressionar a oposição

Em momentos de crise econômica e desemprego, as pessoas ficam vulneráveis a toda sorte de aventuras e aventureiros. Acreditam em saídas milagrosas e remédios fáceis para todos os males. Como diz o ditado: em casa que falta pão, todo mundo grita, todo mundo xinga e ninguém tem razão.

O cenário é desesperador. As pessoas continuam sem emprego, devendo aluguel, água, luz, escola das crianças, e sem perspectiva de sair dessa situação no curto e até no médio prazo. Seria o momento para que as diversas correntes políticas tivessem cuidado para não botar lenha numa fogueira que pode queimar muita gente, inclusive lideranças políticas. Mas não é o que se observa.

Enquanto falta tudo em casa, o brasileiro vê os representantes máximos dos três poderes cuidando de picuinhas, ostentando mordomias desnecessárias e inoportunas. Paralelamente, as medidas necessárias à retomada dos rumos da economia vão sendo tratadas com preguiça em meio a disputas de paternidade. O abuso com a paciência do cidadão não tem limites. Há um incêndio criminoso em curso e em vez de buscar água nossos representantes trazem palha seca e fósforo.

Num cenário como esse, quando o equilíbrio seria recomendado, a oposição transforma um ato corriqueiro em tempos de crise, como o contingenciamento de recursos do orçamento, em corte na educação e faz em cima disso um proselitismo perigoso. Uma medida tomada pelos governos passados por necessidade é tratada agora como um atentado escandaloso ao futuro de nossos jovens.

Está evidente que o objetivo dos protestos da oposição pouco têm a ver com o contingenciamento. Há um grande descontentamento com a condução bamba do Executivo, somada à oportunidade de os derrotados se vingarem dos vencedores.

É um direito da oposição e uma grande sacada para mobilizar o povo contra o governo. Faz parte da democracia. Mas quando o governo quer responder na mesma moeda, pode estar cometendo um atentado à democracia.

Não cabe a governos convocar manifestações. E nem costuma ter bom resultado entre nós. Collor chamou o povo a se manifestar de verde e amarelo contra seu impeachment. O povo vestiu preto. Mas o perigo maior dessa concepção é que ela ensaia um enfraquecimento do sistema democrático representativo.

No passado, o presidente Jair Bolsonaro se mostrou entusiasmado com o populista Hugo Chávez, que dava partida no desastre que hoje assola a Venezuela. Chávez e seus bolivarianos exaltados investiram nas consultas diretas ao eleitorado em busca de legitimidade para seus golpes na democracia.

Usavam o contato direto com o povo para golpear o sistema representativo. Foi nessa ligação direta que ele encontrou combustível para golpear o Judiciário e o Legislativo e ainda cooptar as forças armadas. É uma característica do populismo a ligação direta com o povo, atropelando as instituições e estruturas democráticas.

É por esta razão que movimentos que apoiaram Bolsonaro e trabalharam pela sua eleição estão contra a manifestação do dia 26, convocada para fortalecer o apoio ao presidente, enfraquecido no embate com o Legislativo. Os bolsonaristas não querem nem ouvir falar no parlamento, no qual não confiam e gostariam de ver reduzido a pó. E acham que Bolsonaro tem legitimidade, obtida nas urnas, para comandar essa razia.

Esquecem que deputados e senadores, assim como Bolsonaro, obtiveram seus mandatos nas urnas. Eles têm tanta legitimidade quanto o presidente. Se o povo votou mal para o Legislativo, o que garante que tenha votado bem para o Executivo? Deputados e senadores foram eleitos pelo mesmo colégio de eleitores que colocou Bolsonaro no Planalto.

Diante do fato consumado de que teremos manifestação dia 26, quais as perspectivas? Se as manifestações superarem o protesto da oposição, o presidente se sentirá animado e fortalecido para tocar suas reformas e agilizar seu governo, que anda em marcha lenta? Ou se sentirá estimulado a exibir musculatura de um Hugo Chávez tupiniquim?

Partirá para cima do Congresso com tudo, imaginando que tudo pode sem se dar conta de que não pode? E se as manifestações forem apenas uma demonstração de fraqueza? E se os aliados das eleições fizerem muita falta nas concentrações? Será sem dúvida um desastre com consequências sinistras para o presidente, que já está suficientemente enfraquecido.

Esse enfraquecimento já tem se manifestado nas tentativas de estabelecer uma narrativa janista para as dificuldades que vem encontrando pelo caminho. Forças ocultas que tornam impossível governar são na verdade o jogo de poder com o qual se convive no sistema democrático. Nenhuma democracia do mundo convive com opositores cem por cento bem intencionados. É preciso negociar politicamente, não significando que a negociação política tenha de ser negociata.

No quadro atual do nosso Legislativo, é uma tarefa muito difícil. Muito parlamentar com rabo de palha, muita gente querendo tudo, não é uma situação confortável para o Executivo. Mas é o que tem pra hoje e só existe um caminho: conversa, negociação, transigência no que não for ilegal.

As saídas heterodoxas não combinam com o sistema democrático nem garantem o sucesso desejado. Pode ser uma tentação dar uma lição nos fisiológicos, mas é preciso considerar algo comezinho: sem o apoio deles não haverá reformas, programas bem sucedidos nem governo.