2 Jul 2020

A saída para devolver racionalidade ao Planalto

Por   Qua, 01-Abr-2020
O presidente: a saída é clara O presidente: a saída é clara

O Brasil é um país democrático, mas sua história é uma história da elite brasileira, que conduz os regimes e, na prática, levanta os nomes dos seus presidentes. Tem feito suas escolhas, e é hora de se perguntar se tem feito as escolhas melhores.

O pedaço mais influente do empresariado nacional apostou em 2018 no capitão Jair Bolsonaro, por algumas razões. Primeiro porque Bolsonaro, nas reuniões a portas fechadas, comprometeu-se em não tomar de volta o dinheiro que ganharam nos governos do PT, recuperando em impostos a imensa transferência de recursos do Estado, exaurido até quebrar, transferindo o dinheiro para o setor privado.

Segundo, porque Bolsonaro se comprometeu com um programa de governo liberal, tendo como fiador o ministro da Economia Paulo Guedes. Juntos, ambos desmontariam a máquina burocrático-assintencialista do petismo, reduzindo o Esteado e permitindo mais espaço de expansão para a iniciativa privada.

Esse canto de sereia fez com que essas figuras de proa da República fizessem vista grossa a outras coisas, que parecem menos importantes, mas não são.

Primeiro, fizeram pouco caso do radicalismo ideológico de Bolsonaro, um político de mentalidade nacional-estatista, simpatizante de ditaduras, desde que não sejam de esquerda. Sobretudo, não avaliaram bem o homem de temperamento imprevisível, pouco diálogo e nenhuma confiabilidade, visto seu isolamento político em quase trinta anos de Congresso. Seu passado de proximidade inconveniente com a milícia, para não falar do plano terrorista que o fez desembarcar das Forças Armadas do jeito mais elegante possível, deixou de ser considerado.

Um conhecido empresário brasileiro, o pecuarista Tião Maia, que se mudou há muito tempo para a Austrália, costumava dizer que com gente boa se faz até negócio ruim, mas com gente ruim não se faz nem negócio bom. É uma ssabedoria que poucos dos seus pares no Brasil possuem.

Assim como acreditaram que o PT aumentaria o consumo da população e o mercado, sem levar adiante seu projeto de socialismo moreno, os empresários que jogaram suas fichas em Bolsonaro acreditaram que ele fosse resolver a crise econômica sem insistir nas suas ideias de terrorista da direita. Porém, foi o que aconteceu.

Eleito, a ideologia de Bolsonaro tomou conta rapidamente do governo. O presidente passou a acreditar que foram suas ideias que ganharam a eleição, e não a simples aversão ao PT. E passou a fazer questão delas, em vez de rumar para o centro, dialogar com o Congresso e levar adiante as reformas que eram seu compromisso com seus apoiadores.

Bolsonaro voltou ainda a ser um problema para as Forças Armadas. No passado, teve de responder a um inquérito por planejar atentados terroristas em quartéis exigindo aumento do soldo. E continua a ser um filho que os militares já sabiam ser incontrolável. Mesmo assim, aceitaram também apostar no governo.

Emprestaram seu prestígio não apenas a alguém tão à direita que ameaça a democracia, fazendo os generais estrelados parecerem de esquerda, como alguém que trabalha diuturnamente para desestabilizar o sistema - aquilo que os militares têm o dever de proteger.

Tudo foi se acumulando: o discurso do ódio contra os "esquerdopatas", a obsessão com a perseguição pela imprensa, a paranoia de ficar à sombra de seus próprios ministros, a criação de um governo paralelo com ajuda de seus filhos, os ataques aos próprios aliados com auxílio de uma tropa digital hidrófoba. Por fim, Bolsonaro gira ao contrário na crise do virus, indo contra uma corrente mundial.

Nada disso qualifica um presidente, que numa crise tão grave deveria se colocar como uma liderança positiva.

Para a elite, já estava ficando claro que a política liberal vinha sendo insuficiente. Não só no Brasil. No mundo inteiro, cresce a miséria e a concentração de renda. Não há como fazer o país crescer e tirar a população da miséria, mantendo a estabilidade, sem alguma política social. A pandemia só potencializou ainda mais uma situação que já era crítica.

Diante da catástorfe, em vez de enfim se colocar na postura de um líder, Bolsonaro continuou a ser ele mesmo: o terrorista com a faixa presidencial. Enfrentou governadores contra as medidas de contenção, desautorizou seu ministro da Saúde, que no entanto continuou no posto, e se tornou um problema ainda maior para o país.

Num pronunciamento em cadeia nacional nesta segunda-feira, Bolsonaro tentou recolocar-se dentro do próprio governo, admitindo a necesidade do isolamento para conter os efeitos da pandemia, mas já carece de credibilidade. Mais: todos já perceberam que, com ele à frente, mesmo passada a Covid-19, o país continuará tendo um fator permanente de turbulência.

Bolsonaro mostrou que, enfraquecido, reage mal. Segundo gente próxima, tem gritado com colaboradores próximos e vive aos xingamentos. Sugeriu que seria bem vindo um golpe. E fomentou um movimento público contra as instituições republicanas e democráticas bem no meio da pandemia. Parece mergulhado na areia movediça. Cada vez que se mexe, afunda mais.

Até as elites que apostaram cegamente em Bolsonaro podem perceber que assim não dá. Muitos já desembarcaram do seu apoio, como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, líder da área ruralista, e os evangélicos, que possuem uma bancada importante no Congresso.

Transformado em ameaça á saúde pública, além de alvo do repúdio mundial, Bolsonaro perdeu as condições de governar. Sua própria equipe age à sua revelia, com respaldo do meio político e da maior parte da população. Bolsonaro pode ser levado mais adiante, como um fantoche, mas o ideal seria que ele mesmo, reconhecendo a crise, tomasse a iniciativa de sair de cena, renunciando.

Seria como ver de novo o filme de Jânio Quadros, em 1961. A diferença é que o vice não é um João Goulart. Hamilton Mourão é um militar de verdade, que assumiria não por meio de um golpe de Estado, mas na simples condição de vice, sucessor legítimo e eleito democraticamente.

Essa parece hoje a única forma de devolver alguma racionalidade ao Palácio do Planalto. E instalar, enfim, um clima de estabilidade que, ao fim da epidemia, permita retomar o crescimento e levar o país às próximas eleições sem que nenhum aventureiro lance mão.