7 Jul 2020

A relação de Bolsonaro com a morte de Marielle

Por   Qua, 13-Nov-2019
Capa de Veja: tendencioso ou inconsequente Capa de Veja: tendencioso ou inconsequente

Ao publicar em sua capa a identidade do porteiro do condomínio onde mora o presidente Jair Bolsonaro, a revista Veja pretendeu dar um "furo" de reportagem - uma notícia exclusiva, no jargão jornalístico. Na verdade, praticou um tipo de jornalismo que só pode ser classificado de duas formas: inconsequente, ou tendencioso. Juntou mais um enigma a uma teia de perguntas que relacionam o nome de Bolsonaro à morte da vereadora Marielle Franco. E que, se não configuram prova  alguma, bastam no mínimo para mostrar que o Brasil gosta de viver perigosamente.

Veja não fez uma entrevista com o porteiro, nem colheu informações relevantes para a investigação da morte de Marielle. Não avançou na investigação jornalística sobre o suposto envolvimento que teria o presidente seja com o assassinato em si, seja com os policiais militares acusados do crime. Apenas publicou propositalmente o nome do porteiro, hoje peça chave no inquérito que corre sob sigilo de Justiça.

Ao dar nome e endereço ao boi, Veja expôs o porteiro a uma circunstância perigosa. Pode ser jornalismo inconsequente, que dá uma informação sem pensar no único resultado: coloca um cidadão em risco, sem nenhum benefício em contrapartida, exceto o próprio, gerado pelo sensacionalismo.

A capa de Veja pode também ser jornalismo tendencioso. Sabe-se que o grupo Abril, ao qual pertence Veja, está sendo comprado por um advogado, Fábio Carvalho, com financiamento do Banco Pactual - do qual o ministro da Economia, Paulo Guedes, é sócio licenciado. Expôr o porteiro alimenta as teorias conspiratórias de que ess seria uma forma de amedrontá-lo, ou constrangê-lo, por ter dito que teria ouvido da casa do "seu Jair" a autorização para a entrada de um suspeito da morte de Marielle na noite do crime.

Em qualquer das hipóteses, o resultado é o mesmo. "Solicitamos que o Estado garanta a proteção desta testemunha, por meio da oferta de sua inclusão no Programa de Proteção à Testemunha, uma vez que teve informações pessoais reveladas e está relacionado a um caso extremamente delicado, em que os acusados de executar Marielle Franco são também acusados de serem integrantes de grupos criminosos", afirmou afirmou Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil. "Seu direito à vida precisa ser preservado.”

Há uma série de circunstâncias estranhas ou suspeitas que relacionam Bolsonaro a Marielle. Carlos Bolsonaro acessou diretamente os registros do condomínio. Segundo o próprio presidente Bolsonaro, o fez para preservr as provas, como se essa tarefa não coubesse à polícia. Só faria isso quem tem algo a recear.

Essa é a melhor das hipóteses. A outra é de que os Bolsonaro, estes sim, adulteraram os registros do condomínio, que foram entregues à polícia num CD, apresentado pelo Ministério Público como prova de que não houve comunicação com a casa de Bolsonaro naquela noite.

O hoje presidente, que ao tempo da morte de Marielle era deputado federal, estava em Brasília. Afirmou que só tomou conhecimento de quem era Marielle após a notícia de sua morte, recebida durante um jantar em Brasília, com a presença de deputados e do filho Eduardo. Marcou presença com suas digitais nas duas votações da Câmara naquele dia. Contudo, no dia seguinte, foi um dos poucos políticos a se recusarem a falar sobre a morte de Marielle. Em um Twitter, seu filho Carlos disse que o pai tinha passado mal durante a noite e estava indisposto demais para dar declarações.

A Polícia Civil do Rio apreendeu equipamentos de gravação do Condomínio Vivendas da Barra, no Rio, somente depois que a Rede Globo deu, no Jornal Nacional, a notícia de que havia no registro da portaria uma menção à casa da Bolsonaro. Até então, nada na investigação realizada pelo Gaeco envolvera Bolsonaro.

Segundo reportagem do jornal O Dia, uma das técnicas do Ministério Público que analisou o áudio do porteiro do condomínio, Maria Gargaglione, já foi acusada, pela perícia da Polícia Civil, de 'edição fraudulenta' de uma escuta em uma outra investigação, de 2009. 

A promotora do Ministério Público que deu uma entrevista afirmando possuir provas materiais de que o porterio estava "mentindo", Carmen Carvalho, foi obrigada a deixar o caso. Isso somente depois que brotaram protestos nas redes sociais, com fotos dela com Bolsonaro estampado na camisa e postagens em que Carmen comemora a vitória eleitoral no ano passado.

As supostas provas eram o CD que os peritos criminais, por meio de sua associação no Rio de Janeiro, refutaram sequer como evidência, exigindo que os exames fossem feitos no material original e direatamente nos computadores dos quais o material foi extraído.

Essas estranhas evidências não formam prova de nada, nem mesmo pelo conjunto. Já basta para algum juízo, porém, a proximidade de Bolsonaro com os milicianos, que seu filho Flávio já declarou considerar "herois". Agraciados com prêmios de bons serviços prestados à comunidade na Assembleia Estadual, são esses amigos hoje os chefes e colaboradores de uma quadrilha de matadores, poder paralelo semelhante ao de facções criminosas como o Comando Vermelho. Com a diferença de que contavam no mínimo com a simpatia do presidente e seus filhos.

É verdade que isso já se sabia antes das eleições, e que Bolsonaro foi eleito assim mesmo. Triste de um país crente em salvadores que apenas usam a esperança para instalar no poder o que há de pior - e obrigam a sociedade a ter que lutar contra os monstros que ela própria alimentou.