17 Out 2019

A questão mineral do crioulo doido

Por   Qua, 07-Nov-2018
Mina de nióbio em Araxá: não paga as contas Mina de nióbio em Araxá: não paga as contas

O presidente eleito acredita que o nióbio pode ser a salvação da lavoura, digo, da exploração mineral. Por esta razão, quer os gringos fora desse campo.

Já Temer deixa frouxo, quer ver a terra sendo revolvida de norte a sul gerando riqueza.

Quando o governo desta terra anunciou um decreto acabando com a Renca, nem desconfiei, pensei que o presidente Temer tinha caído na real e resolvido dissolver o partido dele para se livrar do bando todo. Sarnei, Calheiros, Jucá e mais uma renca de sujeitos mais enrolados que repolho orbitam o poder desde que Cabral, um português ruim de direção, por aqui aportou.

Mas não era nada disso, Renca era apenas a sigla de Reserva Nacional de Cobre e Associados, uma rica área mineral no meio da Amazônia. Cobre, ouro, manganês, há de um tudo naquele mato. Muita gente de olho naquele oco de mundo habitado por índios e anacondas.

 O governo liberou a exploração mineral para a iniciativa privada. O barulho foi grande, com repercussão mundial. Temer resolveu mexer no decreto, untou de vaselina, mas a bugrada verde não engoliu. Ainda vai dar muito pano pra manga. Na ocasião, o filho do Sarney (onde anda o Ibama, que não proíbe essa raça de procriar?) tranquilizou a todos: “Senta, gente, que o jaguar é manso”, disse o ministro do Meio Ambiente. Não convenceu.

Os preservacionistas, os naturebas e os ciclistas não querem nem saber. Nem uma árvore pode tombar. Imagina só, se Stálin fosse ceder a esses hippies. O Mar de Aral ainda seria aquela imensidão de água inútil, e não o lago Paranoá que vemos hoje.

Os canadenses já sabiam dessa tramoia havia meses e estavam prontos pra dar o bote. O brasileiro nem desconfiava. Poderoso, o serviço secreto canadense. O informante deles atuava de X9 no coração do poder. Tinha até gabinete na Esplanada dos Ministérios. A coisa estava de vaca não reconhecer Bezerra. Os escândalos se reproduziam como Coelho.

Nada disso! Eles ficaram sabendo de tudo abertamente pelo próprio governo brasileiro, durante evento promovido pelo Prospectors and Developers Association of Canada. A reserva, uma área de 46 000 quilômetros quadrados, do tamanho da Dinamarca, foi criada em 1984 nos estertores do governo militar. Assim como aconteceu com o neutro país nórdico em 1940, a área já foi invadida por um bando de louros falando uma língua estranha. A negociata já estava feita e não havia como voltar atrás.

Tratava-se então de dourar a pílula, que no caso era um grande supositório no derrière dos nativos. Dizia um ascensorista do Planalto que essa jogada poderia macular o currículo de Temer. Hein? Mácula no currículo dessa gente é refresco. Ouvido sobre o assunto, o ministro da Casa, Comida e Roupa Lavada tranquilizou a nação.

“O decreto apenas regulariza uma situação que já existia”, disse o onipresente ministro Vai Pra Casa Padilha. “Já havia exploração clandestina de ouro e outros minérios no local”, disse ele. “Tratava-se de regularizar o que já existia de forma descontrolada”. Assim como a corrupção, imagino. Próximo passo pode ser legalizar o homicídio, que hoje é proibido, mas praticado na módica cifra de 60.000 vítimas ao ano.

Este país não é sério. O evangélico ex-presidente da Câmara, preso com a boca, mãos e pés na botija, já condenado a 15 anos de cana, disse que iria recorrer ao Papa para que seu pedido de habeas corpus fosse julgado pelo ministro do Supremo que cuida das bandalhas políticas.

Que falta de fé desses evangélicos. Imagina o Lutero pedindo arreglo para um papa hóstia! Por essas e outras os marxistas, ateus, ciclistas e safadinhos só rezam pra São Marx.

Num furdunço desses, Temer primeiro e único deixou a questão da Renca mal parada e resolveu passear do outro lado do mundo. Fez uma viagem à China para incrementar os negócios. E, claro, aproveitar para comprar aquela pomadinha milagrosa, que lubrifica a ferramenta na hora do aperta em cima e arrocha embaixo de alcova.

O único perigo era o Aerotemer ser confundido com uma bomba enviada pelo zé fogueteiro da Coreia do Norte e acabar abatido no Mar do Japão. A Renca da China é outra, como suspeita o eleito Bolsonaro: o nióbio, um mineral que torna o aço mais leve e resistente, cujas reservas mundiais parecem estar 85% no Brasil.

Enquanto Temer voava, em Brasília, o presidente da Câmara assumia a Presidência da República – aqui vige um sistema inédito, a dróica, com dois presidentes na ativa ao mesmo tempo. Um não faz nada e o outro nada faz.

O filho do prefeito maluquinho assumia o Palácio e entregava a um tal de Futuca Que Eu Gamo a direção da casa legislativa e o encaminhamento das reformas que, lógico, não saíram. Aliás, a ideia inicial era fazer reformas, mas acabaram mexendo tanto nos projetos que eles se transformaram em gambiarras banais.

A turma do Quanto é que Eu Levo Nisso? aproveitou para fazer negócios. “Eu quero é me arrumá”, exultou por aqueles dias um deputado de nome inglês (o que denuncia sua origem humilde, pois aqui todo pobre tem nome inglês).

O final do mandato está logo ali e nada de reformas, todos esqueceram a polêmica da Renca, os nativos continuam perplexos com a horda de louros de olhos azuis que tupã mandou para tirar coisinhas do subsolo da floresta em troca de espelhos e facões.

Temer olha pela janela a vastidão do planalto central, um vazio do tamanho de sua alma. Nesse instante, lhe vem à cabeça uma imagem que o faz sorrir pelo canto da boca: “Saio daqui renegado, enxovalhado, perseguido, comparado ao mordomo do Drácula. Eles hão de sentir saudades. Espera só até o Mestre ocupar o meu lugar”.

Mas o Mestre está de olho é nos chineses, que babam só de pensar no nosso nióbio. “A América tem o Vale do Silício, nós teremos o Vale do Nióbio”, acredita. Ao contrário de Temer, que liberou nosso oco à exploração mineral, Bolsonaro quer chinês fazendo ordem unida e cantando nosso hino com a camisa do Palmeiras, antes de botar a mão no chão pátrio. Quando soube que os chineses já haviam comprado uma mina de nióbio brasileira, ficou tiririca. A mineração representa só 5% do PIB e o nióbio é traço disso. É, não vai dar para salvar a nação. Com entreguismo ou nacionalismo. Mas o importante é ter saúde, né?