16 Nov 2019

A política para acobertar o crime

Por   Seg, 20-Mai-2019
Bolsonaro vai pra rua: cortina de fumaça Bolsonaro vai pra rua: cortina de fumaça

Num mundo cheio das falácias do meio digital, caberia aos esclarecidos colaborar para que fossem sepultadas. E hoje o Brasil enfrenta um único e verdadeiro inimigo: o encantamento das serpentes, que é o acobertamento do crime por meio da política, turbinada pelas redes sociais.

O grande princípio que norteou e trouxe sucesso à Lava Jato, aceito pelo Supremo Federal e a Justiça de forma geral, é o fato de que o crime do colarinho branco nunca deixa digitais. Usa laranjas e outros expedientes para colocar um anteparo entre o mentor e beneficiário do crime e o crime propriamente dito.

A Lava Jato só pega essa gente graúda porque usa outros instrumentos, como a delação premiada - testemunho também é prova. Isso porque pela primeira vez na história brasileira tem o objetivo de pegar os mandantes, e não a peãozada.

Assim foi com Lula, que tinha propriedades em nome de amigos, contas em nomes de outras pessoas, e ainda usava seu poder de encantar as massas para fazer pressão sobre o poder público. Dizia que não existiam provas, porque não há as digitais, e convocava a militância para as ruas, querendo fazer parecer perseguição política o que era apenas um processo criminal.

Ao convocar a manifestação de 26 de maio, o presidente Jair Bolsonaro segue o mesmo caminho. Começa a aparecer no seu rastro um grande laranjal. Sua ex-mulher, Ana, e outros parentes foram detectados como funcionários fantasmas que devolviam o dinheiro do salário ao filho, Flávio Bolsonaro, por meio de Fabrício Queiroz - a prática da chamada "rachadinha"

O Ministério Público viu aí uma "organização criminosa", que explorava sistematicamente esse esquema para arrecadar . Investiga ainda as relações de Flávio com as milícias, pela proximidade com o Capitão Adriano e o fato de enriquecer negociando imóveis - uma das áreas onde atuava o Escritório do Crime, do capitão hoje foragido da polícia, suspeita ainda de envolvimento na morte da vereador Marielle Franco.

Pior: o presidente, que tinha a ex-mulher no esquema, além de outros funcionários que fantasmagoreavam tanto no seu gabinete quanto no de Flávio, parece indissociável da investigação sobre o filho. A "organização" dos Bolsonaro, pelo que verificou o MP, é uma coisa só.

Ao querer agora associar a investigação a um ataque político, tanto do Congresso quanto do STF, Bolsonaro faz exatamente como Lula. Procura jogar uma cortina de fumaça sobre uma investigação criminal.

"Não vão me pegar", bradou ele, ao seu estilo. Talvez mostrasse mais virilidade se fizesse passar os projetos no Congresso, em vez de se mostrar reclamando do sistema e tão preocupado com a própria sombra, atirando até mesmo nos próprios colaboradores.

O Congresso foi eleito de forma tão legítima quanto Bolsonaro. Sua resposta às iniciativas do governo tem também a legitimidadde da delegação popular. Não adianta reclamar de uma emparedamento. Se o governo Bolsonaro está parado, é mais por seus próprios erros. E não adianta culpar os outros.

Nós já sabemos como acabam essas histórias. Para a Lava Jato, não importa que o dinheiro entrou nos gabinetes dos Bolsonaro na forma de depósitos à vista de origem indeterminada. Nem que o operador seja Fabrício Queiroz. Eles têm os instrumentos, hoje em dia, para chegar ao mandante. Os Bolsonaro sabem disso, Por isso, o presidente já coloca na rua sua máquina de pressão, a pretexto de estar sendo vítima do "sistema".

O Congresso não é um ninho de anjos, é verdade. Porém, o "sistema" tambem foi feito para conter descalabros e colaborar para a investigação de crimes de um poder pelo outro. É o republicanismo, de que Bolsonaro tanto fala, e seu pleno funcionamento.

Ao acusar o Congresso de golpismo, Bolsonaro não quer contestar ou purificar o sistema, como alega. Quer apenas salvar a sua própria pele. Ou arriscar seu próprio golpe. E jogar a população contra oura Casa onde os integrantes foram eleitos, tanto quanto ele.

Um triste cenário, para um país que precisava de união e serenidade, de modo a devolver a tranquilidade necessária para a retomada dos investimentos e a volta do crescimento econômico, para não diz da paz institucional.