24 Ago 2019

A indústria brasileira marca passo

Por   Dom, 10-Fev-2019
Tecnologia, por Rube Goldberg Tecnologia, por Rube Goldberg

Sob o apelido Indústria.4 está reunido um elenco de tecnologias com suas virtudes e características: conectividade, integração, realidade expandida, inteligência artificial, flexibilidade, qualidade total, robótica especializada, big data, impressão 3D.

O que elas compartilham é o fato de serem desdobramentos e aplicações da informatização na manufatura. Quem sabe orquestrar este conjunto já está no futuro da indústria e na liderança dos negócios.

Não é o caso da maioria de nossas empresas.

Chegar ao status de Indústria.4 implica necessariamente incorporar estas tecnologias e operá-las como rotinas do projeto mais abrangente e permanente que a indústria persegue desde sempre: a qualidade controlada e garantida, a redução de custos, desde as docas de recepção de componentes e insumos até o obsoletismo do produto na mão do cliente.

O pelotão que lidera este processo de transformação evolutiva da indústria inclui Alemanha, onde ele foi batizado durante a Feira Internacional de Hannover, e mais França, Estados Unidos e Japão.

O Brasil, ex-quinto colocado no ranking de fabricantes de máquinas-ferramenta não aparece nesta foto e o sinais de sua reação estão fracos, espasmódicos e confusos.

A meta de elevar nossa indústria, como setor econômico, ao desempenho compatível com a quarta revolução industrial permanece acanhada, onde a deixamos ficar nos últimos dez anos, como literatura tecno-onírica e longe de ser viável para a maioria das empresas, confinadas ao dilema de qualificar-se no obrigatório status.4 ou entregar o mercado.

Respostas, explicações e muitas desculpas esfarrapadas sobram e o que resta depois de muitos planos promissores e frustrados são aqueles números que desmontam nosso orgulho e debocham de nossa competência politica e empresarial.

Por que seria diferente se a indústria tem menos de 10% de participação no PIB ?; por que teríamos melhor avaliação se modorramos agora na 69ª posição no índice global de inovação?; por que desabamos da 5ª posição no índice global de competitividade da manufatura para a vexatória 29ª posição? Por que se permitiu , afinal, que tudo isso ocorresse em menos de uma década?

Apesar dos números e até por causa deles a indústria precisa reencontrar seu pique ; e logo, porque o cenário desafiador inclui ainda um cronograma apertado . As providencias que podem relançar a nossa indústria a patamares competitivos e admiti-la à quarta revolução industrial pedem presteza.

Não temos as décadas de tolerância que a terceira revolução nos concedeu, em cujo berço ainda trabalha a grande maioria de nossa indústria. A quarta revolução acontece em velocidade eletrônica. A contragosto da nossa tendência deixa-pra-depois.

Está passando da hora, portanto de esquecer o deixa-pra-depois porque as primeiras decisões do governo Bolsonaro criaram mais dificuldades, não bastassem as que sempre existiram.

Nove meses atrás, o então ministro da Indústria e Comércio Marcos Jorge de Lima, repetia para empresários em São Paulo a agenda das 10 medidas para a Indústria.4, número considerado necessário para abrigar empresas em diferentes estágios de maturidade no processo de modernização industrial.

Para evitar qualquer puxão de orelha do seu chefe Michel Temer, incluiu no seu discurso a contribuição do governo Federal – 51 ações de desburocratização , ou seja, entulho com que o próprio Estado atravancou o caminho do desenvolvimento industrial. Valeu como ato tardio de contrição.

Enfatizou também a necessidade de reciclar a mão-de-obra, talvez o principal problema do Pais se queremos ingressar e progredir na nova era industrial. Mas não teve uma palavra sobre como aproveitar o ócio forçado de 13 milhões de desempregados em um programa intensivo de reciclagem profissional.

A nova era industrial – é disto que estamos falando - já provou em pontos privilegiados do cenário mundial que a mão-de-obra precisa de capacitação multidisciplinar, sensibilidade para adaptação às novas exigências das máquinas, atenção para as urgências colocadas por sistemas como o big data que lhe permitem intervir em processos distantes.

Neste cenário protagonizado por máquinas é quase incrível que o profissional da indústria, em qualquer escalão, vai precisar “reciclagem social” para manter um bom relacionamento com colegas e profissionais pessoalmente inalcançáveis.

Nove meses depois do discurso de Marcos Jorge, o Ministério da Indústria desapareceu, submerso no megalômano Ministério da Fazenda, Planejamento e Indústria e Comércio. Sem identidade própria, prioridades afogadas em rotinas estranhas, status subalterno aos imperativos fazendários, pouca coisa afinal que lembre os dias em que a Industria podia perder seus combates político- administrativos mas disputava a primeira divisão.

A Confederação Nacional da Indústria protestou contra este rebaixamento argumentando muito justamente que a indústria responde por 21% do PIB , recolhimento de 32% dos impostos federais, 51% das exportações e emprega 10 milhões de brasileiros. Não comoveu.

Estamos portanto onde estivemos nos últimos dez anos. A evolução industrial vai demorar. Em vez das ações que viabilizem um projeto serio para o desenvolvimento da industria.4, retornamos às origens do debate para reclamar o status perdidos. Em outras palavras a Indústria, relegada a patinho-feio, ainda quer ser um cisne.