17 Out 2019

A imprensa já não imprime

Por   Seg, 30-Set-2019

A agonia do jornalismo impresso num mundo em crise

Um colega da minha geração perdeu o emprego de uma hora para outra. A profissão sempre teve grande rotatividade. Perder um emprego ou pedir demissão e partir para nova empreitada era comum. Os bons recebiam convites para trocar de patrão e ganhar mais. E os demitidos por qualquer motivo não se desesperavam. Bastava ter o perfil adequado para conseguir uma recolocação. Mas agora as coisas estão diferentes.

Os dias se passaram e o colega não viu luz no final do túnel. De repente, uma sensação de desamparo, de falta de perspectivas. Ficar em casa esperando a chegada de boletos e um fim melancólico, depois de uma carreira exemplar, é uma situação desesperadora.

Juntou o pouco que tinha, deu como entrada num carro e se meteu no difícil ramo dos aplicativos de transportes, último refúgio dos desgarrados do mercado. Meses depois, concluiu que trabalhara só para pagar a prestação do veículo, o combustível e a internet necessária para tocar o negócio.

Desistir? Não, nunca. Optou por continuar trabalhando sem lucro. Sobrevivendo. Continuou para se manter ativo. Se sentir produtivo. Continuou para não morrer. Esperando por algum milagre. Mas não sabe até quando.

Quando deixei meu último emprego, depois de 40 anos de profissão e 50 de trabalho assalariado, ninguém diria que estivéssemos em extinção. Mas, dinossauro escolado e ligado nas paradas, eu percebia a atualidade daquela placa que o hippie exibia na Califórnia dos anos 60: “O fim está próximo”.

E estava. Não o mundo e não nos anos 60. O fim estava próximo para nosso mercado de trabalho. Um tsunami atropelou as redações, reduzidas a meia dúzia de três ou quatro. Os leitores passaram a se informar pela internet.

As publicações logo correram para lá, também. Mas a migração de publicações e leitores não foi acompanhada pelo dinheiro. Esse velho malandro que a tudo compra descobriu que no terreno virtual poderia se apresentar mais escassamente. Com efeito equivalente? Quem sabe? O fato é que as mudanças tecnológicas mexeram com os veículos e os usuários da informação e deram um tombo na gente. E a crise econômica jogou areia em cima.

Existe uma crise econômica no país e, para complicar, o mundo cresce menos e as notícias que nos chegam do futuro próximo não são nada otimistas. O desemprego vem caindo, no Brasil, é verdade. Mas muito lentamente. O auge da crise entre nós deixou um saldo de mais de 13 milhões de desempregados.

Desde o governo Temer, esse número vem se reduzindo e fechamos agosto com 12,6 milhões de trabalhadores desocupados. Mesmo a reocupação está se dando em novos termos: salários menores e atividades informais, sem carteira assinada. Somos hoje assustadores 38,8 milhões de pessoas na informalidade, ou seja, 41,4% da mão-de-obra ocupada. Isso tem um lado positivo.

Se o emprego formal tende a recuar progressivamente, dada a evolução tecnológica e, conjunturalmente, devido à crise, é fato que há uma dinâmica própria nas atividades fora da caixinha da carteira de trabalho assinada.

Há um vigor inquestionável no campo informal brasileiro. Tanto que de novembro de 2018 a maio deste ano cresceu 17% o número de registro de Microempresas Individuais, as MEI. A formalização via MEI reduz um pouco a queda de arrecadação do governo causada pelo desemprego e a desaceleração econômica.

Crise e mudanças tecnológicas afetaram quase todos os setores da economia, resultando nessa legião de mais de uma dezena de milhões de desempregados. Crise econômica é conjuntural e, passada, traz de volta as vagas que comeu. Mas as mudanças estruturais são como um salto no escuro. Não se sabe aonde vão dar, mas sabe-se que não têm volta. A vida seguirá, como sempre. Muitos sobreviverão, mas uma parcela dos que tombaram de 2015 para cá jamais se reerguerá.

É uma crise global, que aqui se juntou a uma conjuntura trágica para o mercado de trabalho. Por esses dias o produtor rural e ex-ministro Blairo Maggi esteve no Vale do Silício, na Califórnia, para sentir as mudanças em gestação.

Conheceu e provou produtos das pesquisas de ponta que em breve estarão habitando nosso mundo e terão grande impacto na nossa vida. “O que vi aqui todos esses dias foi um pouco preocupante, principalmente para as pessoas mais jovens. Quase todas as profissões que existem hoje vão ser substituídas por máquinas, no futuro. Não é coisa de ficção, vi isso ao vivo e em cores”.

Blairo viu máquinas complicadas sendo construídas em minutos por equipamentos que retirarão muita mão de obra das plantas das fábricas, como já ocorreu com a automação industrial e a introdução de robôs nas linhas de produção. Só que agora num patamar tecnológico ainda mais elevado.

Ele viu alimentos desenvolvidos a partir de células-tronco e comeu carne feita em laboratório. Produtos agrícolas que hoje ocupam vastas áreas sendo produzidos em ambientes controlados, frutos da engenharia genética, elevando a produtividade a níveis nunca vistos ou imaginados.

Diz Blairo: “A preocupação é que milhões de empregos devem desaparecer no curto prazo; toda atividade na qual se precisa fazer três vezes do mesmo jeito será substituída por máquinas.

As empresas e governos vão precisar de menos gente, tudo vai precisar de menos gente.

Hoje já se fabricam peças de turbina de avião ou motores em impressoras 3D, o que levaria uma semana para ser produzido é feito em menos de um minuto”. Bem, já é assim há algum tempo, mas o que ele viu é a revolução tecnológica dando novos passos. E com novos efeitos colaterais.

As mudanças tecnológicas sempre desempregaram os menos qualificados, reciclaram os mais antigos aptos a encarar mudanças e recrutaram os novos. Mas eram mudanças setoriais, que iam se processando lentamente, permitindo a reciclagem profissional, o treinamento para os novos ambientes e a recolocação para quem não se adaptasse.

Agora é diferente. As mudanças são rápidas como nunca, são globais e radicais. Não é tarefa fácil a que temos pela frente. Nada disso é tão surpreendente, mas o que se supunha é que não faltaria trabalho para quem produz conteúdo de qualidade. Pelo menos em jornalismo.

Acontece que isso evoluiu por um caminho no qual o meio é a mensagem, como previa MacLuhan. As pessoas entram no Facebook para se inserir no contexto, não pelo conteúdo. Não pela qualidade do que pode encontrar na rede. Nesse ambiente, assinar uma boa revista é menos sedutor que contratar um serviço de internet mais rápida com maior tempo de uso.

A informação qualificada de jornais e revistas perde espaço para os fatos sem procedência que pululam na rede. Para se ter uma idéia. Houve um tempo em que o prédio do Grupo Folhas, em São Paulo, abrigava as redações da Folha de S. Paulo, Folha da Tarde, Notícias Populares. Última Hora, Cidade de Santos, Gazeta Mercantil, A Gazeta, Gazeta Esportiva e Agência Folhas. Além de uma equipe de 100 revisores.

Hoje, só segue a Folha de São Paulo, enfrentando grandes dificuldades, e o Cidade de Santos, cuja redação se concentrou no litoral. Os demais sucumbiram. O fato é que hoje o jornalismo impresso informa pouco e informa com atraso. E os novos meios informam mal.

No afã de publicar quantidades enormes de notas por minuto, tratam como notícia as maiores irrelevâncias. “Fulana deixa o filho no Rio com o marido e vai trabalhar em Paris”. Não é uma separação, o trabalho em Paris não é por muito tempo e - pasmem! - é só um desconforto familiar, de interesse restrito e privado. Mas é o que tem pra hoje.

Como dizia o poeta, isso é só o fim.