24 Abr 2019

A ditadura das minorias

Por   Dom, 10-Fev-2019

A democracia é um sistema que privilegia a maioria e garante o respeito às minorias. Mas há quem queira que ela seja o governo das minorias com uma banana para a maioria. A nova esquerda foca sua militância na defesa dessas minorias, eternamente perseguidas e injustiçadas.

Acenou para esses grupos com a possibilidade de criação de um mundo mais justo, sem perseguição ou preconceito, no qual possam viver livremente.

Esse canto da sereia atraiu um exército de Brancaleone nunca visto no ramo da política: abortistas, comunistas, anarquistas, socialistas, lésbicas, travestis, homossexuais, pansexuais, movimentos raciais e até ciclistas. Verdadeiro samba do militante doido, parafraseando Sérgio Porto.

É claro que todos esses grupos têm motivos para se sentir menosprezados, descuidados, perseguidos. Mas para unir essa gente toda não basta um objetivo. É preciso apontar os responsáveis pela situação. O inimigo comum.

O processo histórico que nos trouxe até isso não comove. É preciso fulanizar, dar nome aos inimigos, apontar-lhes o dedo e ameaçá-los com uma guinada radical plena de vingança. Os que gritam contra o discurso de ódio fazem exatamente isso: cultivam e disseminam o ódio.

O homem branco, hétero, liberal tem o physique du rôle para encarnar a figura maldita. Bom começo. Mas não é o suficiente. É preciso especializar o ódio, dando a cada segmento dessa frente de magoados, além do algoz em comum, o seu inimigo particular.

Ciclistas contra motoristas, negros contra brancos, nordestinos contra sulistas, homossexuais e LGBTs contra héteros, abortistas contra carolas, socialistas contra capitalistas. Ai do negro que não se curve a essa verdade. Pobre do gay que achar tudo isso um besteirol.
Criar um inimigo em comum é bom para unir as bases. Particularizar ajuda a dar um tom familiar a esse ódio.

Lula e o PT fizeram isso muito bem, implementando a fórmula com grande sucesso, durante um bom tempo. Neste momento, perderam a hegemonia, mas não perderam o entusiasmo. A luta continua. Com a conhecida volatilidade do eleitorado, é provável que voltem ao poder sob o mesmo comando ou guiados por outro segmento dessa frente. E tome minorias no discurso.

Trata-se de uma estratégia universal, planejada, e nesse sentido racional. Mas nada mais é que a racionalidade dentro do irracional. Como todo mundo se identifica com alguma minoria, acabamos por concluir que essa pregação atinge na verdade uma maioria. Mas essa política é ideologicamente frágil.

Como acreditar que gente que sempre perseguiu os homossexuais, como o governo cubano, surja como aliado dessa onda “progressista”? A ilha é um país negro que não tem negros no primeiro escalão. Como acreditar nessa gente que identifica uma cultura do estupro entre nós e não dá um pio contra um Daniel Ortega, presidente balançante da Nicarágua, algoz da própria enteada, que o acusa de tê-la estuprado e abusado da infância à adolescência?

 A grande dificuldade dessa empreitada é dar-lhe um embasamento teórico, sempre caro e necessário às lutas marxistas, no passado. Resolveu-se esse pequeno detalhe lançando mão do velho populismo. Palavras de ordem, slogans, acusações genéricas, promessas de igualdade. Nada de análise profunda, nada de preocupação com a verdade. Criam narrativas para substituí-la.

Qualquer pé-de-pano da militância é capaz de apontar o dedo acusador para o interlocutor fascista, machista, racista, propagador do discurso de ódio e conivente com a cultura do estupro. Aparelhado com esse arsenal de caçador de passarinhos, está criado o militante sem cérebro.

Uma militância associada a um exército lúmpen recrutado nos cantos escuros e mal cuidados das nossas cidades, sob comando de velhas raposas radicais fracassadas. E, claro, com apoio de estratos médios da sociedade, que só teriam a perder num mundo socialista, mas que aplacam seu sentimento de culpa de privilegiados num mundo de injustiça social apoiando a nova “luta” por um mundo melhor.

Mas há esse problema: todo mundo integra alguma minoria, inclusive o homem branco hétero, que pode ser favelado, idoso, cardíaco, analfabeto etc. Logo, todos somos vítimas, teoricamente. E somos também algozes. O inimigo da nova esquerda é o espelho.