2 Jul 2020

A conta da desigualdade social

Por   Seg, 20-Abr-2020

O Brasil acompanhou de longe o desenrolar da pandemia, enquanto estava na Europa, como se não tivesse nada com isso. Parecia que o Primeiro Mundo estava com seus problemas e tomava sua lição. Acontece que a lição chegou ao Brasil. E a pandemia, num país que já se arrastava com uma crise, despreparado para enfrentar outra pior, ameaça se tornar implacável.

Todos estão pagando um preço, mas o Brasil é mais vulnerável. Tem mais dificuldade de adotar medidas restritivas de convívio social e paralisação da economia que a Europa. A população não tem poupança e não pode simplesmente ficar em casa. Com a convivência, a pandemia tende a se alastrar de forma geométrica, especialmente nas periferias, e, ainda que o Sistema Único de Saúde seja razoável, o desafio pode ser muito maior do que pode suportar

"Na Europa, estamos vendo os problemas que eles estão enfrentando, mas são países que têm uma estrutura social relativamente bem organizada, fica mais fácil dessa maneira", afirmou o médico Drauzio Varella, em entrevista à BBC Brasil. "Agora [no Brasil] vem a conta a pagar. Porque é a primeira vez que nós vamos ter a epidemia se disseminando em larga escala em um país de dimensões continentais e com tanta desigualdade. Agora é que nós vamos pagar o preço por essa desigualdade social com a qual nós convivemos por décadas e décadas, aceitando como uma coisa praticamente natural."

Desde que tratava doentes em presídios, Drauzio sabe do que está falando. Ele conhece medicina - e também a miséria. Agora, está diante de um fundo de emergência do Banco Itaú, de 1 bilhão de reais, criado para ações de contingenciamento emergencial da pandemia. É um caso exemplar.

Por anos a fio, os bancos vêm tendo lucros exuberantes no Brasil. Ninguém pensou em reduzir esses lucros antes, para usar o dinheiro de maneira a melhorar as condições de vida do brasileiro, incluindo a saúde pública. Agora, na crise extrema, o Itaú se voluntaria com dinheiro para o fundo emergencial.

Não deixa de ser uma atitude louvável. Porém, é de se perguntar por que isso não foi feito antes, quando não havia emergência. E por que tem de ser feito de forma voluntária, como uma concessão da elite para salvar o populacho, em vez de ser uma responsabilidade social constante, para evitar que, na emergência, a emergência não seja tão grande.

A elite brasileira se acostumou a tratar o povo desde os primórdios da nossa história como se a própria vida fosse um favor, ou concessão. Ao povo, dá-se o trabalho e a dignidade como uma licença. Essa lógica permite o enriquecimento de uns e a manutenção do povo na miséria e na semi-escravidão.

Está na hora de repensar o Brasil, a começar pela conduta da própria elite brasileira, anacrônica como os velhos capitães do mato. Porque o povo não existe para servir a mesa, recolher o lixo ou cimentar tijolo. Ou para entrar em casa como agregado depois da pandemia, trabalhando de graça, como aconteceu no Século XVII com os índios, vitimados por uma epidemia de varíola, que os fazia venderem-se a si mesmos como escravos, em troca de comida.

Manter o povo vivo, no Século XXI, não é simplesmente garantir a mão de obra barata. O povo é a própria Nação. Sem um povo educado, com saúde e qualidade de vida, um país está condenado a ficar cada vez mais para trás na escala do desenvolvimento. Isso significa menos riqueza. Um bom motivo, para os capitães do mato, se eles não tiverem outro.