18 Out 2021

A comunicação destrói uma gestão

Por   Seg, 11-Mai-2020
Você beberia? Você beberia?

Os integrantes do governo Jair Bolsonaro, a começar dele mesmo, são especialistas em atrair a antipatia geral, mesmo quando têm bons planos ou boas intenções. São caso exemplar de comunicação ruinosa, que vale a pena ter como parâmetro, mas do que não se pode fazer. Assim como na gestão privada, há governos que servem como "cases" de comunicação que, associada a decisões equivocadas, produzem o efeito contrário ao desejado, arruinam a imagem, desestabilizam a liderança e minam a própria gestão.

A comunicação se dá tanto por palavras como pelo exemplo - isto é, a ação. Ninguém duvida que o presidente Bolsonaro tenha boas intenções quando diz, por exemplo, que se preocupa com o isolamento, porque a paralisação da economia é potencialmente desastrosa. Porém, a forma como passa essa mensagem acaba sendo um desastre para ele, como líder da Nação.

 Depois de dizer publicamente que não teme pessoalmente o Covid-19, como se pensasse em si mesmo em primeiro lugar, Bolsonaro tem feito tudo para se mostrar indiferente ao caos, como se nada tivesse com isso. Já que não teme o Covid-19, podia estar no domingo indo a hospitais, mostrar que se importa com o que está acontecendo, que é humano, e que está no comando. Em vez disso, ocupa-se promovendo manifestações contra o STF, anuncia seu desejo de fazer um churrasco e, da última vez, andou de jet ski.

Com palavras e atitudes, o presidente abandona a liderança do processo e, pior, transmite a impressão de que deixa de fazer algo que pode evitar mortes. Há dois tipos de morte: aquela contra as quais não se pode fazer nada, e aquelas que ocorrem por omissão. E omissão é crime.

O ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, hoje secretário da Fazenda e Planejamento de São Paulo, mostrou na sexta-feira passada um discurso mais adequado à situação. "O que paralisa a economia não é o isolamento, é a pandemia", disse ele, em entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes. Liberar o comércio, os shows e o futebol não iria criar a retomada da economia, dado o medo da população de sair de casa.

Ao lembrar que o isolamento não é a causa da crise, ao contrário, é a solução mais rápida para a saída da pandemia, Meirelles apresenta uma visão mais realista do problema, de acordo com o que é consenso mundial. Ao encarar a realidade, mostra-se mais capaz de enfrentar o problema. Assume a postura de autoridade responsável.

Brigar contra a realidade, ou negá-la, tira a credibilidade da liderança. A repetição de um discurso ideológico, que estimula uma contra-corrente com aura de seita suicida, pode funcionar com militantes e seguidores fanáticos, mas é contraproducente diante do conjunto da sociedade. Esta é muito maior que os grupos radiciais, obrigada a ter os pés no chão. O braisleiro de maneira geral está mais preocupada ainda com a pandemia porque não tem dinheiro para pagar hospital particular e sabe que a saúde pública tem limitações.

"Trouxas"

Bolsonaro não é o único a tomar iniciativas desastradas de comunicação. Na sexta-feira, o ministro da Economia, Paulo Guedes, em uma live promovida pelo Banco Itaú, disse que no Brasil "200 milhões de trouxas são explorados por seis bancos". Além de um desrespeito com o anfitrião, Guedes produziu uma dessas declarações infelizes destinadas a desagradar gregos e troianos.

Para os "trouxas", fica a curiosidade de saber o que ele, que enriqueceu no sistema financeiro, e está agora no governo, tem a fazer para mudar essa situação. Para os bancos, fica a dúvida sobre o que esperar de um ministro que fala assim dos seus pares, depois de passsar a vida enriquecendo como um deles.

Em si, a declaração de Guedes não tem nada de errado: tecnicamente, ele estád izendo que chegou a hora de os bancos darem uma contribuição maior à sociedade, depois de anos a fio com lucros formidáveis. A maneira desagradável para todos que tulizou, porém, fez com a delcração se voltasse contra o seu autor.

A forma não determina o conteúdo, mas muda a percepção dos outros em relação ao conteúdo. Você pode colocar água limpa dentro de uma garrafa suja por fora e garantir que está limpa, mas é pouco provável que alguém queira bebê-la. A forma de apresentação do conteúdo, portanto, é essencial.

O presidente optou por manter no governo sua equipe de comunicação de campanha, que era informal, guerrilheira e mais baseada na identidade ideológica com o presidente que experimentada na comunicação profissional, necessária quando você não é mais um candidato franco-atirador, mas, formalmente, o presidente da república. Bolsonaro contoinua um franco-atirador da comunicação e está pagando o preço por essa política de fogo trocado, que exclui o entendimento com a imprensa e um diálogo mais aberto com toda a sociedade.

Ele pode até estar contente com os resultados, mas existem jeitos bem melhores de obter-se resultados.