28 Nov 2021

A cobra de duas cabeças

Por   Seg, 25-Out-2021

Na física se diz que os opostos se atraem. Na política, também, é mais do que sabido que os extremos se tocam. Isto fica claro na radicalização bipolar que assistimos neste momento.

De um lado, a esquerda petista. Do outro, os fundamentalistas pseudo cristãos do bolsonarismo. Aqueles, negacionistas com relação aos desmandos, incompetência e crimes praticados nos governos Lula e Dilma.

Estes, santos do pau oco, pecam em nome de Deus. Desprezam a vida em nome do Senhor. Invadem hospitais e hostilizam o pessoal dos serviços de saúde que enfrenta a pandemia.

As semelhanças entre essas duas hordas são muitas. De modo que era balela a crítica bolsonarista ao petismo. A direita no poder faz tudo que condenava no governo de esquerda e faz igual. Isso quando não faz pior.

 

Senão, vejamos. O movimento comandado pelo capitão cresceu na aba da Lava Jato, condenando a corrupção petista. Viu-se com o escândalo da rachadinha que não passam de sepulcros caiados. O que pareceu no primeiro momento uma mancada de um dos filhos do homem revelou-se um modo de operar da família.

A CPI da Covid mostrou que, ao contrário do que grita o presidente esmurrando o peito, há corrupção em seu governo. Não é à toa que o presidente apressou-se em se desfazer do ministro que julgara os processos de corrupção, e ainda ajudou a desmantelar a Lava Jato.

Outro ponto que encanta o moralista de direita é o ataque às mordomias dos governos petistas e os gastos secretos com cartão corporativos. Mas o que era ataque virou defesa. Agora vemos a turma do anauê justificando esses pecados antes condenados. Se lambuzar nas mordomias não se restringe ao Palácio.

É preciso que o clã todo participe. O filho Eduardo posou de sheik numa visita a Dubai que custou uma pequena fortuna aos cofres públicos. TCU e Ministério Público estão querendo saber detalhes da farra às custas do erário que soou como verdadeiro soco no estômago faminto de boa parte da população. É hipocrisia que chama, né?

Os governos de coalizão tão atacados pelo líder da seita olavista e sua turba foi a saída que encontraram para parar de apanhar nas casas legislativas. Deram os dedos e os anéis. Entregaram a chave do cofre para fazer seu boi passar. O Centrão botou gente em todo canto da máquina e do governo. Não demorou para que exalasse um cheiro característico dos porões da administração central.

Os programas sociais, populistas quando lançados pela esquerda, viraram a salvação da lavoura do governo de direita. Haja convicção. Mas essa passou a ser a única saída visualizada pelo líder de manadas para recuperar a popularidade perdida no desastre de sua atuação na pandemia.

Pior: para bancar a ajuda aos mais necessitados, uma generosidade eleitoreira e não cristã, vale até dilmar. Andam chamando Jesus de Genésio. Mas o que está em gestação tem nome. E nome de um pecadilho que levou à cassação de Dilma Roussef: pedalada.

As semelhanças entre os extremos é ampla, geral e irrestrita. Isso fica claro também nos ataques à imprensa. Só falta os bolsonaristas ressuscitarem o PIG, forma que a militância petista usava para de referir à grande imprensa.

Logo veremos a turma do cercadinho gritando em coro que “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!”. As agressões físicas aos profissionais de imprensa já estão em prática. Ninguém morreu por explosão de foguete, é verdade. Mas essa gente anda armada. Não pode sair nada de bom desse reduto. Até os sonhos de estabelecimento de um poder absoluto são comuns aos dois times.

Na autocrítica do partido depois da derrota do candidato da esquerda, um baluarte do grupo afirmou que seu governo falhara em não cooptar as Forças Armadas, como fez Hugo Chávez na Venezuela. A cooptação dos militares neste governo é uma prioridade. Incluindo aí as forças fardadas estaduais.

Resumindo, as duas bandas que polarizam a disputa política se identificam na incompetência, na corrupção e no autoritarismo. Não teremos salvação a partir dessas plagas. É osso.