19 Set 2019

A bolsa de valores da política

Por   Ter, 03-Set-2019

A revolução do meio digital tem provocado uma profunda mudança política na era contemporânea. Ao permitir a informação em tempo real, e assim a fiscalização do poder público também ao vivo e em período integral, a internet viabilizou uma nova forma de democracia participativa, que acaba substituindo a democracia representativa do século XX.

É como se voltássemos aos primórdios da antiga Pólis grega, em que os cidadãos iam para a praça votar, levantando a mão. Esse tipo de consulta democrática acabou se tornando inviável, com o aumento da população e também das decisões de Estado. E a democracia assumiu sua forma representativa, em que alguns são escolhidos para representar ses eleitores nas decisões da esfera pública.

Porém, o fato de cada cidadão agora se transformar num potencial ativista político, participando de grupos de pressão que podem inclusive rapidamente se mobilizar em manifestações de rua, permite a criação de uma nova forma de democracia participativa em larga escala, na qual o poder público tem de dar respostas também de forma direta, o tempo todo, e acaba sendo obrigado a ouvir os movimentos de pressão a cada passo.

Nesse aspecto, o presidente Jair Bolsonaro entendeu os novos tempos. Não perde a oportunidade de dar as respostas que quer ou precisa, seja em aparições diárias pela imprensa gradiocional, seja disparando suas posições sobre qualquer assunto por meio das redes, como o Twitter.

A internet obriga hoje o poder público a uma metamorfose, da mesma forma que ocorre no setor privado, onde as empresas são levadas a mudar completamente seu funcionamento para sobreviver. É um efeito em escala mundial, que promete subverter até mesmo a noção do Estado nacional e muda as bases históricas do sistema capitalista, sobre o qual ele se afirma.

Como escreveu o pensador alemão Karl Mannheim, em seu célebre texto sobre o conservadorismo ("O Pensamento Conservador", de 1927) a riqueza e o poder sempre advieram da posse da terra, base sobre a qual se estabeleceram os meios de produção, as Nações, com seus usos e costumes, e os Estados nacionais. 

Com a internet, as nações vão sendo aos poucos substituídas pelo conceito de comunidades, que se unem ao redor de interesses comuns, não necessariamente os de um país, podendo ser inclusive transnacionais. É o caso dos movimentos ambientalistas e de gênero. No campo dos negócios, surgem moedas virtuais, que fogem ao controle dos bancos centrais, e outros negócios que atravessam barreiras alfandegárias e fogem muitas vezes ao controle dos Estados nacionais, diminuindo sua arrecadação e mesmo seu poder coercitivo.

Dessa forma, a política vai se transformando numa espécie de grande mercado global, em que os valores mudam e são testados o tempo todo, ao sabor de seus agentes. Eles entram diariamente no mercado, mudando o balanço das correlações de força. Ao fim do dia, assim como nas bolsas de valores, alguém ganhou e alguém perdeu. Até o dia seguinte, quando começa tudo outra vez.

É de se suspeitar que, como em qualquer mercado, ocorram distorções e alguém queira usar truques sujos para levar vantagem. É preciso portanto alguma forma de controlar a internet. Apesar do ideal da liberdade de informação, é difícil esperar uma auto-regulação desse mercado político-social, com todos os seus vetores, numa espécie de laissez-faire virtual.

O que tem ocorrido é uma luta por espaço, em que se espalham versões e contra-versões, com um resultado que nem sempre se anula. Sobrepõe-se, no fim das contas, quem tem mais dinheiro e disposição para impulsionar suas ideias no grande campo de batalha virtual onde se procura ao mesmo tempo responder e intimidar os adversários e conquistar adeptos.

Por enquanto, a principal reação à mudança da era digital é uma volta do populismo e do conservadorismo em larga escala, seja na Europa social-democrata como nos Estados Unidos e na América Latina. Não se trata de coincidência, ou de acaso.

Na definição de Mannheim, conservadorismo é um estilo de pensamento que surgiu como contraponto às liberdades da revolução Francesa, que em pouco tempo foram consideradas excessivas e responsabilizadas pela desordem, dando lugar na França a um novo regime autoritário. Hoje, o conservadorismo retorna, não somente pela dificuldade de manutenção do crescimento global de forma sustentável, como pela sensação de desagregação da multiplicidade político-cultural e seus conflitos criada pelas redes sociais.

Assim, como em toda onda conservadora, o conservadorismo na era digital tem o sentido da recuperação de tudo o que ela ameaça desagregar: os valores nacionais, a defesa do território nacional, assim como as instituições, padrões morais de comportamento e da ordem em geral, especialmente nos países onde a grande liberdade levou também à corrupção, como o Brasil.

Ocorre que a era digital traz ainda um outro fenômeno perverso, que é o da concentração de renda. Ao destruir setores inteiros, como o varejo, concentrando os recursos na mão de algumas poucas empresas transnacionais detentoras das novas tecnologias, a internet tem gerado muito mais desemprego que emprego e aumenta a distância entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos, que mergulham numa era de depauperação que politicamente vai se tornando explosiva.

Enquanto de um lado permite, empodera e dá força de participação às massas, a era digital também as empobrece, aumentando o potencial de pressão. Que pode chegar, no limite dos vetores da política e da economia, disparados em sentidos opostos, a um ponto explosivo.

As empresas de tecnologia parece ainda não ter percebido sua importância nesse jogo. Mark Zuckenberg, fundador dodo Facebook, só falou sobre o escândalo de manipulação de dados da Cambridge Analytics, instrumentalizando sua plataforma, quando chamado a depor pelo Congresso americano e o sistema judicial. E mostrou-se mais assustado que consciente e disposto a colaborar com algum tipo de controle.

A possibilidade de fraude e manipulação no jogo da informação virtual é um dos fatores mais sensíveis da nova configuração mundial. Isso conta a favor da ideia de que não é possível deixar o mercado funcionar sozinho.

É preciso que os Estados nacionais entendam a necessidade vital de unir-se também globalmente para enfrentar problemas globais dentro do ambiente virtualmente viralizador. Ou então, a exemplo do que já fazem a Rússia e a China - com sua tradição autoritária, que dispensa prestar contas ao chamado mundo livre - será preciso encontrar uma maneira de dividir ou mesmo cortar os braços desses gigantes que podem levar o mundo a um nível de tensão ainda inimaginável.