19 Nov 2019

2022 já começou para Huck

Por   Ter, 15-Out-2019
Huck: ainda é cedo Huck: ainda é cedo

O esforço prematuro para superar os extremos

As ideologias morreram. Morreram, mas se recusam a voltar para o inferno, de onde nunca deveriam ter saído. Em vez disso, ficam por aí perambulando e nos assombrando com seus roteiros macabros de salvação da humanidade, que acabam sempre em genocídios e destruição das economias. A luta do Brasil hoje é pela superação dessa fatalidade, que no nosso tempo se manifesta através de populismos nos dois extremos.

Quando Jair Bolsonaro era apenas uma piada com pretensões à presidência da República, se percebia que os ataques contra o homem vindos da esquerda estavam inflando e tornando uma realidade sua candidatura. Atacavam o capitão da reserva travestido de deputado com argumentos que só encontravam eco dentro da caixinha vermelha.

Mesmo não sendo um analista político ou um grande jornalista, era possível perceber que os brasileiros que pagam impostos, criam e educam seus filhos, respeitam as leis e tocam seu barco com dedicação não fariam coro aos ataques desferidos contra o homem. Ao contrário, concordariam com suas críticas às leviandades progressistas.

Quando uma doidivanas metida a revolucionária obrou em sua foto em plena Avenida Paulista, ela garantiu para Bolsonaro alguns milhares de votos. Nem a facada teve o condão de arrebanhar simpatia por sua candidatura como atos escatológicos como esses.

Não há como querer que o homem comum aceite tais excessos como coisa descolada, moderninha, revolucionária. Para ele isso não passa de grosseria desnecessária e ofensiva ao público.

Esse radicalismo é uma tendência mundial que floresce principalmente em tempos de crise econômica e falta de perspectivas. Basta um novo ciclo de abundância e crescimento com geração de empregos para essas manifestações se tornarem mais fruto do delírio de gente esquisita do que atos revolucionários. É bom lembrar isso no momento em que esse estado de alienação ameaça se estender até a sucessão presidencial de 2022.

É ocioso repetir que o nó da questão está na economia. Se ela vai bem, os radicais ficam falando para sua limitada corriola. E é bom ter em mente que o desemprego vai caindo, lentamente, mas caindo. O emprego cresceu em 14 capitais. A inflação segue muito abaixo da meta. Os juros despencaram. As reformas capengam, mas estão andando. Medidas como a facilidade para se abrir empresas, perspectivas de desburocratização dos negócios e desoneração da atividade empresarial ajudam a prever uma melhoria do cenário interno, mesmo com previsões ruins em termos globais.

 São indicadores que fizeram o país subir um posto no ranking global de produtividade do Fórum Econômico Mundial.

Aparentemente teremos no próximo pleito um novo confronto entre o populismo de direita e seu correspondente na esquerda. Mais do mesmo. Uma alternativa unindo centro, centro esquerda e centro direita está sendo gestada tendo como antídoto ao populismo dos extremos uma candidatura popular. Popular em termos de alcance, não de origem: o apresentador de TV Luciano Huck.

Um brasileiro de família bem posicionada na elite, jovem dinâmico, profissional e empresário bem sucedido, mas sem nenhuma experiência política ou administrativa. Não seria o primeiro presidente sem estofo para o cargo, sabendo-se que antes dele passaram pelo Planalto Bolsonaro e Dilma.

Mas nas urnas a experiência administrativa nunca pesou. O eleitor é vulnerável às dificuldades econômicas e simpático aos apelos populistas com suas promessas de solução simples para problemas complexos. Se a economia não decolar até lá, as urnas receberão a resposta dos desesperados: o voto nos salvadores da pátria.

O que se questiona neste momento é se se pode levar à sério uma candidatura como a do marido de Angélica. Direita e esquerda parecem levar a sério, sim. Tanto que já pululam nas redes razões para desconfiar de Huck, como a montagem na qual ele elogia a união do então governador fluminense Sérgio Cabral, com o empresário Eike Batista e o então prefeito carioca Eduardo Paes.

Criticam também o financiamento do BNDEs para que uma das empresas nas quais tem participação comprasse um jatinho. Logo voltarão a falar da sua casa em Angra cujas obras foram questionadas por órgão de defesa do meio ambiente. Essas críticas prematuras demonstram duas coisas: Huck é vulnerável a ataques dos dois lados e sua candidatura já está sendo levada a sério.

“Nós do Cidadania estamos de porta aberta para Huck. Quando chegar o momento e se esse momento chegar, a procura dele por um partido para se filiar, o Cidadania estará lá na primeira fila”, diz Roberto Freire, presidente do partido sucessor do PPS, que já escancarou as portas para o apresentador. É uma estratégia temerária, quando se tem no estado mais importante da federação um governador competente, determinado e hábil.
Na hipótese muito provável de Dória fazer um bom governo de centro, quem se não ele terá melhores trunfos para enfrentar os extremos?

Além disso, uma pré-candidatura, mesmo como simples balão de ensaio, lançada ainda no primeiro ano do governo atual, pode funcionar como boi de piranha. "Pelo amor de Deus, chega de mandar estagiário para a Presidência da República!”, disse Ciro Gomes, candidatíssimo de esquerda para 2022, referindo-se a Huck.

Sob ataque, a candidatura do apresentador será desidratada antes mesmo de iniciado o ciclo eleitoral. No caldeirão da sucessão, a candidatura Huck poderá se tornar uma lata velha que nem seu show televisivo conseguirá reformar.