3 Jun 2020

Essa onda crescente de defender a intervenção militar no processo político vem provocando uma calamitosa confusão de conceitos sobre o que seria, afinal, uma ditadura – e, mais que isso, o que foi o regime militar instaurado no Brasil em 1964. 

No final da semana passada, quando a curva das contaminações pelo Covid começava a baixar nos Estados Unidos e na Rússia, o Brasil se tornou o único país com superpopulação a ver o número de contaminações e mortes ainda subindo como um foguete - e figurou no discurso da OMS como o novo "epicentro" da pandemia mundial.

Não podia dar outra, porque na periferia das metrópoles e em muitas cidades pelo interior do país a população permanecia na rua, infensa aos apelos das autoridades estaduais e municipais para manter o isolamento.

A política brasileira vira briga de cortiço 

A delação do empresário Paulo Marinho, cujo depoimento à Polícia Federal indica que os Bolsonaro sabiam antes da deflagração da Operação Furna da Onça, é mais importante do que simplesmente acrescentar um dado relevante às investigações sobre a tentativa do presidente de proteger-se de forma indevida, seja na corrida eleitoral, seja dentro do governo.

Marinho foi um colaborador fundamental de Bolsonaro, não só por colocar sua casa como quartel-general político na corrida eleitoral, como pela sua participação na inteligência de campanha e no aliciamento de apoio empresarial.

Representa o grupo de empresários que apostou em Bolsonaro, como garantia de que o Brasil não voltaria atrás, devolvendo o poder a Lula e o PT. Bolsonaro foi seu trunfo para garantir ganhos passados, que poderiam ser cobrados de volta num novo governo populista de cunho socializante, agora que o Estado brasileiro se encontra na penúria, após a enorme transferência de recursos para o setor privado pelo estímulo ao consumo.

Ao voltar-se contra o homem que ajudou a inventar, a clássica história do criador tentando controlar a criatura, Marinho indica que a verdadeira base de apoio ao presidente - a elite predatória que colocou Paulo Guedes como garantia de que ele cumpriria os termos do acordo para sua eleição - está abandonando o barco.  Essa, sim, é uma má notícia para o presidente.

Ícone da dramaturgia nacional, a atriz Regina Duarte, na sua passagem dos 72 para os 73 anos, resolveu fazer uma incursão na política, talvez o único papel que lhe faltava. Demorou a entrar, demorou para sair. Nesse meio, seu desempenho foi dos poucos da carreira na medida exata para se esquecer.

Nunca antes na história deste país houve um Congresso Nacional tão favorável ao presidente-eleito. A bancada pró-Bolsonaro que emergiu das urnas em 2018 só encontra paralelo no Congresso eleito em 1970, em 2/3 favorável ao presidente Médici - e ainda assim estávamos em uma ditadura militar e, ademais, em pleno "milagre econômico". A bancada eleita em 1986, durante o Plano Cruzado, também começou governista, mas acho que não chegava a 2/3, a conferir. 

Virou religião, sem base científica, e uma legião de bolsonaristas só reza pela droga

Agora só nos resta o Caminho do Meio, o da moderação, diálogo, serenidade -- aquele caminho que vem sendo apontado há mais de dois milênios por sábios como Aristóteles, Confúcio, Buda, Jesus, Agostinho, Francisco, Gandhi...

A maneira como o presidente Jair Bolsonaro se dirige aos seus ministros, em vídeo apresentado à Polícia Federal, é mais do que a simples tentativa de intervir para proteger seus familiares de investigação no Rio de Janeiro.

Usando palavrões e seu estilo falo-e-não-estou-nem-aí, o presidente se mostra à vontade, sem preocupação com sutilezas, nem com a lei. Quer o que quer, e acabou. Não é autoritarismo. É a mais pura truculência. Nem os militares no regime militar falavam assim. Pelo menos, eles se preocupavam com as aparências. Bolsonaro, ou o Bolsonero, como chamou a revista britânica Economist, não.

Os integrantes do governo Jair Bolsonaro, a começar dele mesmo, são especialistas em atrair a antipatia geral, mesmo quando têm bons planos ou boas intenções. São caso exemplar de comunicação ruinosa, que vale a pena ter como parâmetro, mas do que não se pode fazer. Assim como na gestão privada, há governos que servem como "cases" de comunicação que, associada a decisões equivocadas, produzem o efeito contrário ao desejado, arruinam a imagem, desestabilizam a liderança e minam a própria gestão.

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