24 Ago 2019

Sinais de negligência no incêndio do Flamengo

  Dom, 10-Fev-2019
Kayke, os sobreviventes e a negligência Kayke, os sobreviventes e a negligência

O jogador Kayque Soares, um dos sobreviventes do incêndio no Ninho do Urubu, centro de treinamento do Flamengo que pegou fogo, matando dez atletas das categorias de base do clube e deixando três com ferimentos, contou ao SporTV o que viu naquela noite.

E, quanto mais se sabe sobre a tragédia, como as muitas que o Brasil tem se acostumado a ver nos últimos anos, mais claros ficam os indícios de negligência dos responsáveis. 

Kayque afirmou que acordou durante o incêndio e foi um dos últimos a conseguir escapar pela porta do alojamento. Ouviu pedidos de socorro e o segurança Benedito Ferreira quebrar uma janela para salvar outros três garotos.

"Foi um desespero muito grande, não sabia o que fazer", disse ele. "Só se via fumaça. Eu estava dormindo, só escutava barulho, quando levantei da cama tinha outro menino dormindo. Ele acordou e veio atrás. Queimou minha perna, mas tudo tranquilo."

"Escutei pedidos de socorro, eu e mais um menino fomos os últimos a sair pela porta. O monitor quebrou a janela e conseguiu tirar três", completou. Os três aos quais ele se refere são os feridos, hoje internados no Rio de Janeiro.

Um vídeo no qual se vê uma explosão após a saída dos garotos do alojamento indica negligência nas instalações.

De acordo com a prefeitura, em nota publicada na sexta-feira (8), o Flamengo manteve o centro em funcionamento mesmo depois de sua interdição, em outubro de 2017, e construiu um alojamento sem que nunca tenha pedido licença para sua instalação.

“Isso não tem nada a ver com o acidente”, afirmou o CEO do Flamengo, Reinaldo Belotti. “Temos providências a tomar para que o CT seja legalizado. Estamos trabalhando para isso. Precisávamos de nove certificados, já temos oito. E estamos finalizando com os bombeiros para conseguir esse último alvará."

Parece um pouco tarde para essas providências. A área do incêndio tinha licença para funcionar apenas como um estacionamento. A prefeitura diz que multou o clube mais de trinta vezes por falta de alvará para funcionamento do local, que tem campos de treinamento e instalações para jogadores do profissional e das categorias de base.

Das 31 multas por falta de alvará de funcionamento, o Flamengo pagou 10 e deixou de pagar 21.

Tanto o Flamengo quanto a Confederação Brasileir de Futebol podem ser responsabilizados pela tragédia. A confederação é obrigada a certificar clubes formadores de atletas, de acordo com a Lei Pelé, tanto quanto o clube.

A CBF procurou eximir-se de culpa, jogando a responsabilidade para a Federação Estadual. "Cabe à federação estadual a qual o clube é filiado elaborar parecer conclusivo acerca do preenchimento dos requisitos para obtenção do Certificado, após verificação, análise documental e avaliação in loco", afirmou, em nota, a entidade. "À CBF, cabe a revisão de conformidade da documentação enviada pela federação estadual com as normas referidas, podendo, caso necessário, solicitar à federação a complementação ou correção de documentos."

A federação do Rio jogou a batata quente também para outro lado. Afirmou que “não tem a função e a competência inerente aos órgãos públicos e, em relação ao processo de certificação de clube formador, esclarece que recebe a solicitação das agremiações, acompanhada da respectiva documentação comprobatória do cumprimento da Lei Pelé, do cumprimento Resolução da Presidência da CBF e seus anexos I e II, bem como do cumprimento da Resolução da Presidência da FERJ”.

Os jogadores que morreram pertenciam na maioria às categorias de base do Flamengo e tinham entre 14 e 17 anos. Oito dos dez corpos foram identificados: Arthur Vinicius, 14, Pablo Henrique, 14, Victor Isaías, 15, Bernardo Pisetta, 14, Gedson Souza, 14, Athila Paixão, 14, e Christian Esmério, 15.

O CEO do Flamengo afirmou que não foi por falta de licenciamento nem de cuidado que aconteceu a tragédia. Segundo ele, a causa foram picos de energia após o temporal no Rio de Janeiro.

"Alvarás e multas não têm nada a ver com o incêndio que ocorreu", disse. "A verdade é que aconteceu um acidente trágico. Não foi por falta de investimentos e nem de cuidados do Flamengo. Eles eram o nosso maior ativo, o nosso futuro e prezamos muito por isso. Não poupamos esforços em dar o melhor para o nosso pessoal."