25 Mai 2019

Os "idiotas" tomam as ruas do Brasil

  Qua, 15-Mai-2019
Manifestação: contra os cortes e o desrespeito Manifestação: contra os cortes e o desrespeito

Professores, estudantes e funcionários de escolas iniciaram um dia de paralisação e protestos em todo o país contra os cortes anunciados pelo governo na Educação. O presidente Jair Bolsonaro, em viagem para ser homenageado nos Estados Unidos, desdenhou do movimento. Chamou-os de "idiotas".

"A maioria ali é militante", disse. "Se perguntar quanto é 7 vezes oito, não sabem. São uns idiotas úteis, uns imbecis, massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo de muitas universidades federais no Brasil."

Alunos de escolas privadas pararam também em solidariedade às universidades públicas, principal alvo do contingenciamento de gastos do governo. Os protestos se tornaram também políticos, em crítica à ideologização da Educação, e morais, na medida em que se voltam contra um presidente que não tem, ele sim, educação.

Foram registradas já cedo da manhã manifestações na Bahia, Minas Gerais, Pará, Ceará, Espírito Santo e Piauí. Alunos e professores da Universidade de São Paulo, que é estadual, saíram em passeata e bloquearam as ruas de acesso ao campus da Cidade Universitária. 

A maior manifestação foi na Avenida Paulista, em São Paulo. No Rio de Janeiro, a concentração começou na Cinelândia, de onde seguiu para a Candelária, no Centro.

Contra os cortes

É verdade que o governo federal está sem dinheiro, mas os cortes são de alarmar, ainda mais numa área hoje essencial a qualquer projeto para o futuro do país. Nas universidades federais, foram cortados 30% dos recursos destinados a gastos como água, luz e serviços de manutenção. A pesquisa científica nas universidades federais foi congelada. Com isso, o governo ceifou da educação básica à pós-graduação, com a suspensão de bolsas de pesquisa.

“Na verdade não existe corte, o que houve é um problema que a gente pegou o Brasil destruído economicamente também, com baixa nas arrecadações, afetando a previsão de quem fez o orçamento", disse Bolsonaro.Mostrou-se movido pelo medo de perder o emprego. "Se não tiver esse contingenciamento, simplesmente entro contra a lei de responsabilidade fiscal". Pela lei, caso descumpra o orçamento, o presidente fica sujeito ao impeachment.

Essa agora é a grande assombraçao que paira sobre o presidente. Seu filho Carlos hoje postou nas redes sociais um vídeo do seu porta-voz no Youtube, 

Daniel Lopez, com o título "Já está tudo engatilhado em Brasília para derrubar Bolsonaro". Para ele, trata-se de uma conspiração articulada pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, com os líderes dos partidos do Centrão.

Do lado de fora, a perspectiva é de que Bolsonaro não necessita desse tipo de conspiração. Já faz o bastante sozinho. "Bolsonaro já não governa nem a si mesmo", escreveu o jornalista Josias de Souza, do UOL, ao comentar as declarações presidenciais contra o movimento estudantil.

"Demitido"

Em meio aos protestos, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, foi convocado em regime de urgência para prestar esclarecimentos sobre os cortes na Câmara dos Deputados - e não fez melhor papel.

"Eu gostaria também de falar que eu fui bancário, carteira assinada, azulzinha, não sei se vocês conhecem", ironizou. "Trabalhei muito, pagava imposto sindical para valer. Trabalhei muito, recebi o ticketzinho."

Ouviu protestos e gritos pedindo sua "demissão". Um final infeliz para quem foi apaziguar ânimos, mas, como é o tom geral do governo, jogou gasolina em vez de água na fogueira. 

"Eu, como presidente da mesa, me senti ofendido", afirmou o deputado Pereira, que pediu então para que o ministro se resumir à área sobre a qual devia falar.

Weintraub já havia sido convidado para falar em uma comissão, mas não apareceu. Agora, com decisão aprovada em plenário nesta terça-feira, seu comparecimento passou a ser coercitivo. E coincidiu com o dia dos protestos, numa espécie de tempestade perfeita para o governo. 

"Pancada"

A discussão da Educação tomou o lugar da votação das medidas provisórias do governo. "A gente sabe que ninguém funciona aqui na pancada, não tem jeito", disse a deputada Joice Hasselmann, líder do governo na Câmara. "O caminho é o diálogo." 

O líder do governo, Major Vitor Hugo (PSL-GO), pretendia votar esta semana sobretudo a MP 870, que instituiu a reforma administrativa que o presidente Jair Bolsonaro assinou ao tomar posse.

Com exceção do PSl e do Novo, todos os outros partidos votaram por suspender a análise das MPs e convocar Weintraub no lugar. "O mais curioso é que não vemos aqui nem o líder do governo na Câmara, Vitor Hugo, nem a líder no Congresso, Joice Hasselmann, nem o líder do PSL, Delegado Waldir."

Joice reclamou que a "água está no pescoço" numa reunião de líderes. "E não quero que ela chegue no nariz", disse. Caso o governo não aprove a MP até o dia 3 de junho, a reforma administrativa deverá cair inteira. Com isso, os atuais 22 ministérios teriam de voltar a ser os 29 do governo Temer.

A deputada lamentou a falta de disposição dos partidos em negociar, incluindo o próprio PSL. "Ou a gente entende que é no diálogo, na conversa, pelo bem do país, ou vai sair todo mundo perdendo", afirmou, lembrando Dilma Rousseff.

Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro circulava em Dallas, nos Estados Unidos, onde foi receber uma homenagem como Homem do Ano de 2019 por empresários e dizer o que pensa via satélite.

O evento mudou de segunda-feira para a quarta, depois que Bolsonaro foi obrigado a desistir da cerimônia em Nova York - o prefeito Bill de Blasio o declarou persona non grata na cidade e os patrocinadores retiraram seu apoio ao evento. Ao voltar, Bolsonaro deve perceber que anda o mesmo clima por aqui.