19 Set 2019

Violência e risos

Por   Qui, 15-Ago-2019

Estreou nos cinemas brasileiros "Era uma vez em Hollywood", filme de Quentin Tarantino, que como sempre traz a marca da ultra-violência, com uma diferença: como em Bastardos Inglórios, brinca com um episódio chocante da vida real.

Colocar Leonardo DiCaprio e Brad Pitt na história de Charles Manson, o líder louco que comandou o assassinato de um grupo de pessoas, entre as quais a atriz Sharon Tate, mulher do diretor Roman Polanski, quando estava grávida - um dos crimes mais bárbaros de todos os tempos?

Tate é interpretada por Margot Robbie, virando um personagem misto de realidade e fantasia. Todo o tempo, o espectador sabe que caminhará para um desfecho ultra-violento. Mas qual? Não importa. Com seus atores cativantes, um certo bom humor e seu amor pela cultura pop, que dessa vez se concentra nos seriados de TV do final dos anos 1960, Tarantino vai criando o clima para que até o crime mais bárbaro acaba virando motivo de riso.

Emblemática é a cena em que uma integrante do grupo de hippies, encarregados de criar uma obra "do demônio", afirma que as séries de TV criaram uma geração acostumada com a violência - e seria a vez deles de devolver o resultado do que fizeram. 

O assassinato de Sharon Tate e um grupo de amigos, quando ela se encontrava grávida, acaba sendo a história paralela para o ator decadente Rick Dalton (DiCaprio) e seu dublê, Cliff Booth (Pitt). Cria interesse maior ao redor do filme, no momento de uma onda de exploração dos chamados true crimes". No Brasil, está em andamento uma produção que pretende levar para o cinema a história de Suzane Von Richthofen, com o título "A Menina que Matou os Pais". "Bandidos na TV", da Netflix, também traz crimes comuns com cara de entretenimento, embora seja mais documentário que ficção.

Em Cannes, no lançamento do filme, Tarantino disse que o foco do filme não é Tate. Sensacionalismo, é certo. Porém, se a ultra violência dos filmes de Tarantino antes parecia quase comédia, pelo exagero irreal, no mundo ultra-violento de hoje ela é mais que uma banalização do crime - é o seu deboche.