23 Jul 2019

Pedras lascadas mudam a história da Humanidade

  Sex, 05-Jul-2019

Pesquisadores brasileiros e italianos anunciaram uma descoberta que pode mudar a história da Humanidade. Fragmentos de ferramentas feitas de de pedra lascada foram identificados com mais de 2,4 milhões de anos. Com isso, os objetos tiram da África e colocam mais para trás no tempo o que teria sido o começo da Humanidade.

O estudo, publicado pela revista científica "Quaternary Science Reviews" neste sábado, dia 6, foi realizado a partir dos achados em um sítio arqueológico no vale do rio Zarka, no norte da Jordânia.

Até agora, acreditava-se que os primeiros homens teriam saído da África há 1,9 milhão de anos e chegado ao Cáucaso, na Europa oriental, há cerca de 1,8 milhão de anos, data em que foram encontrados os mais antigos vestígios humanos fora do continente africano.

Esse marco tinha sido estabelecido pelo achado de um de cinco crânios encontrados na jazida de Dmanisi, na República da Geórgia em 2005. Em 2012, foi encontrado no Quênia um crânio quase completo e duas mandíbulas de três indivíduos que viveram há cerca de 1,9 milhão de anos, no Paleolítico Inferior.

 

"Para nós foi surpreendente", disse Walter Neves, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, um dos responsáveis pela pesquisa, que contou com uma missão brasileira, além de italianos. "A gente não imaginava que para uma primeira saída a gente fosse conseguir resultados espetaculares."

O trabalho de coleta de material foi realizado entre 2013 e 2015, com fundos da Fapesp e da Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research, de Nova York.

O estudo afasta a teoria de que o primeiro hominídeo a deixar a África foi o Homo erectus, que adotava a postura próxima do homem contemporâneo, com inteligência desenvolvida e altura média de 1,70 m.

O homem da Jordânia pode ter sido o Homo habilis, espécie mais antiga, com 1,20 m de estatura, cérebro pouco maior que o de um chimpanzé e o primeiro a utilizar ferramentas de pedra lascada.

O Habilis, pelo que se sabe, teria surgido na África há 2,5 milhões de anos. Suas ferramentas são semelhantes à da espécie encontrada na Jordânia.

A pesquisa sugere que o Homo habilis seguiu em direção ao Cáucaso e somente depois daria origem ao Homo erectus, que se espalhou para outras regiões e voltou para a África.

Segundo Neves, esse fluxo migratório evolutivo pode ajudar a compreender e explicar um dos mistérios da ciência contemporânea: como explicar as diferenças entre os cinco crânios encontrados em Dmanisi, que não se encaixam em um único grupo.

"Alguns dos crânios são até mais parecidos com o Homo habilis do que com o Homo erectus", afirma. "Antes não havia nenhuma evidência de Homo habilis fora da África. Com a nossa descoberta fica muito mais fácil interpretar o que você tem aqui."