19 Fev 2020

Eleição na Argentina e crise chilena revelam agonia da AL

  Seg, 28-Out-2019
Kirchner e Fernández; círculo vicioso Kirchner e Fernández; círculo vicioso

Neste domingo, a Argentina promoveu, com a eleição de Alberto Fernández, a volta do governo de esquerda, com Cristina Kirchner no posto de vice-presidente. A vitória, com 48% dos votos, contra 40% do atual presidente Mauricio Macri, marca uma certa volta ao passado, com a restauração do kirchnerismo, após o insucesso das políticas liberais atuais. Com isso, a Argentina se soma ao Chile, cuja população, revoltada com os resultados do que era considerado um modelo liberal de governo. E deixa clara a agonia da América Latina, que já tentou todas as soluções existentes e, diante do seu insucesso, parece girar num círculo vicioso que vai jogando os países para trás na História.

"Ajude a reconstruir o país das cinzas", disse Fernández a Macri, em seu discurso de vitória, diante de uma multidão de simpatizantes no quartel-general de coligação Frente de Todos, no bairro de Chacarita, em Buenos Aires. "Tomara que esse compromisso de diálogo que nunca tiveram passem a ter."

Pela regra eleitoral argentina, o candidato é eleito no primeiro turno se tiver mais de 45% dos votos. O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, não gostou do resultado. Bem ao seu estilo, deu palpite onde não deve. "Os argentinos escolheram mal", lamentou, esquecendo a soberania dos povos. Entende-se Bolsonaro sabe que o insucesso do conservadorismo liberal na economia pode trazer de volta o passado também no Brasil - seu pior pesadelo.

"Agora não vamos nos indispor", disse Bolsonaro sobre Fernández. "Vamos esperar o tempo para ver qual é a real posição dele na política. Porque ele vai assumir, vai tomar pé do que está acontecendo e vamos ver qual linha ele vai adotar."

O fato é que, enquanto o Brasil ainda tenta implantar um Estado mais liberal na economia, a Argentina e o Chile já questionam o modelo. Especialmente o Chile, que tentou uma reforma liberal radical, com reformas como a da previdência, mexeu na Constituição, é considerado o paraíso do liberalismo na América Latina e parecia estar andando bem até pouco tempo atrás.

Desde a semana passada, porém, o Chile entrou em convulsão, com 1 milhão de pessoas indo as ruas em Santiago em protesto contra um sistema que se tornou escorchante.

Soluções arcaicas

Fernández é uma volta ao passado em várias direções. Internamente, defende soluções arcaicas como o congelamento de preços para deter a inflação. Pode ser apenas um discurso de campanha, com fins eleitorais, e acabar diante da realidade. É o que espera Bolsonaro, com seu voto de crédito.

Fernández é também uma volta atrás na política externa. Defende a ideia de que Lula é um preso político e foi visitá-lo na prisão, em julho passado, durante sua campanha. Após sua vitória nas eleições primárias, chamou Bolsonaro de "racista e misógino".

O problema maior não é o da solidariedade com simpatizantes ideológicos, a quem se perdoa tudo, inclusive o crime. A Argentina  lança uma dúvida sobre o efeito do receituário liberal na economia, que lá resolveu as questões de fundo tanto quanto o modelo da esquerda popular, seja de Cristina Kirchner, seja a de Lula.

Em 2015, Macri recebeu a Argentina de Kirchner com um alto endividamento, controle cambial e economia fechada. Reduziu a intervenção estatal, com a promessa de assim acabar com a pobreza, mas ela subiu ao seu nível mais alto da década. O Fundo Monetário Internacional estima que o país tenha este ano uma inflação de 57%, sintoma do descontrole geral.

Ainda o favorito do mercado financeiro, Macri foi surpreendido pelo eleitorado. Nas eleições primárias, o peso argentino caiu 30% em relação ao dólar. O presidente tentou aprovar um pacote de medidas intervencionistas para recuperar a popularidade, mas não bastou.

Fernández se comprometeu a não dar um calote nas dívidas públicas, de modo a ranquilizar o mercado. Porém, reafirmou todas as propostas da campanha eleitoral, entre elas a de gerar empregos com maior participação do Estado.

"Daqui em diante só nos resta cumprir o prometido", afirmou. "Saibam os argentinos que cada palavra que demos e cada compromisso que assumimos foi um compromisso moral e ético sobre o país que devemos cumprir."

Ex-chefe de gabinete de Nestor Kirchner, ex-presidente da Argentina e marido de Cristina, falecido em 2010, Fernández começou a carreira como conservador, depois apoiou Menem e entrou para o kirchnerismo. Não há, portanto, nada de novo na política argentina. Em vez da busca por novas soluções, os argentinos voltam ao passado, num circulo vicioso ao qual parece estar presa não apenas a Argentina, como toda a América Latina.

A única solução é quebrar esse círculo, com novas forças capazes de deixar para trás as ideologias de esquerda ou de direita, de modo a trazer as verdadeiros soluções, que passam prelo enfrentamento da concentração de riqueza gerada pelo novo capitalismo na era digital. Ele afeta o mundo inteiro, e especialmente as economias de terceiro mundo, sem tecnologia e de lenta reação às rápidas mudanças do mercado global.

Sem isso, a América Latina, incluído o Brasil, continuará sendo esse velho disco de vinil, que, quando acabam todas as as músicas, continua girando no mesmo lugar.

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