19 Set 2019

Bolsonaro é jogado ao fogo

  Sex, 23-Ago-2019
Site da NBC: guerra mundial Site da NBC: guerra mundial

O grande problema de trocar a inteligência pela truculência é receber a truculência de volta. No caso do presidente Jair Bolsonaro, que tratou o problema global do meio ambiente com descaso e insolência imperial, a reação tem escala planetária. Na esteira da notícia de queimadas na Amazônia, autoridades ambientais e de governo, além da imprensa internacional, agora colocam tudo na conta do presidente, alvo central de manifestações nesta sexta-feira em cidades da Europa e da Ásia.

Já dono de grande rejeição dentro do país, Bolsonaro passou também a ser o inimigo número 1 mundial. Na sexta à noite, tentou melhorar as coisas num pronunciamento pela TV, que não mudou muito sua situação. "Tenho profundo amor e respeito pela Amazônia", disse o presidente. "Proteger a Amazônia é nosso dever."

No seu estilo sem muito cálculo, o presidente chegou a criar um slogan contra si mesmo: disse que queriam chamá-lo de “Capitão Motosserra”. Pegou. Fez campanha com a ideia de que o desenvolvimento econômico brasileiro não podia ser prejudicado pelo amor do mundo à floresta amazônica, o que está certo, mas deixou margem à interpretação de que os madeireiros teriam doravante a complacência do governo. Também pegou.

Pior, Bolsonaro demitiu o presidente do Inpe, agência que  monitora o desmatamento via satélite, quando este alertou que o desmatamento estava aumentando. Na reunião de inimigos criados a cada vez que fala, e no tipo de solução que arranja, vai se tornando unanimidade internacional.

"Culpa de Bolsonaro", escreveu o jornal italiano La Repubblica, entre manchetes semelhantes na imprensa em todo mundo, imolando o presidente brasileiro como uma bruxa na fogueira ambiental. "Não é sempre que você pode identificar uma pessoa como a culpada por algo nessa escala, mas a escuridão do meio do dia [em São Paulo] é o resultado direto da eleição de Jair Bolsonaro para a presidência do país no ano passado”, escreveu no site da rede de TV americana NBC o pesquisador Bill McKibben.

Na França, o presidente Emmanuel Macron pediu 

"mobilização de todas as potências" e "investir no reflorestamento" para fazer o trabalho ao qual o Brasil estaria dando pouca importância.

Somente depis da repercussão mundial, Bolsonaro decidiu convocar um gabinete de crise. Colocou as Forças Armadas à disposição dos governadores de quatro estados e fez seu pronunciamento.

No Twitter, adotou outro tom. Chamou a fala de Macron de "desfaçatez" e o acusou de ter "mentalidade colonialista". "O governo brasileiro segue aberto ao diálogo, com base em dados objetivos e no respeito mútuo", disse. "A sugestão do presidente francês, de que assuntos amazônicos sejam discutidos no G7 sem a participação dos países da região, evoca mentalidade colonialista descabida no século XXI."

É certo que o Brasil tem soberania sobre a parte da Amazônia em seu território, mas, por simples falta de diplomacia, Bolsonaro transformou a questão sem necessidade numa guerra mundial.

França e Irlanda já anunciaram que, como retaliação às posições do governo brasileiro, devem votar contra o acordo pré-formado de aliança comercial entre a União Europeia e o Mercosul. A Alemanha e a Noruega cancelaram o dinheiro para o Fundo Amazônia. E a reação global parece estar apenas no começo.

No Brasil, passaram a circular por WhatsApp vídeos e fotos de queimadas supostamente do desastre amazônico e essa notícia de que as nuvens negras sobre São Paulo nos últimos dias contém fuligem da mata fumegante.

A tropa cibernética do governo respondeu com outra onda de WhatsApp, mostrando que as queimadas da "Amazônia" iam até a Bahia, havia fotos de incêndio em pinjheiras, mata inexistente no território amazônico, e um índio diante do fogo era de Minas Gerais.

Ema ordem direta às embaixadas, o governo pretendeu transformar a questão das queimadas em mera questão ideológica. Em entrevista a um programa na TV francesa France 24, o embaixador do Brasil na França, Luís Fernando Serra, disse que no governo do ex-presidente Lula houve incêndios maiores na Amazônia, sem causarem o mesmo escândalo.

Por cima da guerra da desinformação, à qual vamos nos habituando, está a certeza de que Bolsonaro acaba sempre jogando contra ele mesmo, inclusive quando tem razão. Além do desastre ambiental, o Brasil agora certamente terá de arcar com as consequências nefastas do desastre político de um presidente que vive ateando fogo em tudo - e acaba queimando a si mesmo.