24 Ago 2019

Às vésperas da Copa, Rússia não melhora imagem

  Qua, 14-Mar-2018
Putin: dribles na lei para permanecer no poder Putin: dribles na lei para permanecer no poder

A primeira-ministra britânica, Theresa May, anunciou nesta quarta-feira a expulsão de  23 diplomatas russos, sob a acusação de agirem de acordo com a inteligência russa na tentativa de envenenamento de um ex-espião, também russo: Sergei Skripal, radicado em Salisbury, no sul da Inglaterra.

Nas vésperas da Copa do Mundo de futebol, o episódio é mais um a arranhar a imagem da Rússia, que neste domingo deve reeleger novamente Vladimir Putin - mais um governante vitalício, num país onde a democracia ainda não parece totalmente instaurada, depois do fim da União Soviética.

Skripal foi envenenado no último dia 4 num parque de Salisbury, junto com a filha, Yulia. Ambos foram hospitalizados em estado grave, assim como um policial que tentou ajudá-los, Nick Bailey.

Com a expulsão dos diplomatas, a primeira-ministra britânica praticamente corta relações diplomáticas com a Rússia. Avisou que o Reino Unido não enviará membros da familia real ou ministros à Copa.

"Eles trataram o uso de um agente nervoso de grau militar na Europa com sarcasmo, desprezo e em tom desafiador", declarou May. "Não há outra conclusão diferente do que considerar que o Estado russo foi culpado pela tentativa de assassinato de Skripal e sua filha - e por ameaçar a vida de cidadãos britânicos em Salisbury."

"Míope"

A embaixada russa em Londres, notificada da expulsão, com um prazo de uma semana para deixar o país, declarou se tratar de uma "ação hostil, injustificada e míope".

A tensão diplomática vem em má hora para os russos, que se preparam para a grande confraternização mundial da Copa do Mundo. Isso, porém, não tem modificado o seu comportamento, pelo menos no governo. O presidente russo, Vladimir Putin, encontra-se em plena campanha eleitoral e é o favorio para permanecer no cargo  após a eleição deste domingo. Está há 18 anos na presidência russa.

Para chegar lá, Putin fez um único evento público - uma aparição no estádio de futebol Luzhniki, futuro palco da decisão da Copa, com uma plateia de 80 mil pessoas. Putin não gosta de fazer campanha - e parece cada vez menos preocupado com isso.

O segredo do sucesso de Putin é a imagem que ele construiu de restaurador do prestígio russo, depois do fracasso da União Soviética. "Há um sentimento de humilhação em torno da queda da União Soviética", afirmou o cientista político Jens Siegert, baseado em Moscou, à Folha de S. Paulo.  As atitudes beligerantes fazem parte do processo de reafirmação da Rússia, tanto com direção à Europa como os Estados Unidos.

Nos últimos tempos, Putin revelou uma série de planos dentro de um projeto de desenvolvimento armamentista, que inclui um míssil não rastreável por equipamentos americanos. "Vocês não nos escutaram naquela época, nos escutem então agora", disse Putin.

Outra parte da popularidade do presidente russo se deve à recuperação da economia, que se encontrava em calamidade quando ele assumiu pela primeira vez, com uma queda de 50% no PIB. Ninguém pagava ninguém, incluindo o governo aos seus funcionários.

"Essa é a base do poder de Putin: o medo da volta aos aos 90", afirma Siegert. A geração até 18 anos não sabe o que é viver na Rússia sem Putin. Segundo as pesquisas do Centro de Estudos da Opinião Pública, ele tem dois terços das intenções de voto no país, algo entre 69% e 73%, para o que seria seu quarto mandato.

Como a Constituição proíbe mais que dois mandatos consecutivos, ele já havia driblado a lei em 2008, tornando-se primeiro-ministro. Quatro anos depois, voltou à presidência. A oposição reclamou da manobra, mas ela foi validada pelo Tribunal Supremo, o STF de lá.

Com a exceção de que o Brasil não tem ex-espiões para envenenar, e prefere cachaça à vodca, não há grandes diferenças.