21 Jul 2019

"Transportadoras não cumpriram a tabela"

  Sáb, 13-Abr-2019
Bolsonaro: intervenção Bolsonaro: intervenção

O retorno da crise dos caminhoneiros se deve a uma série de fatores, que não dizem respeito ao preço do diesel, forçado a recuar na sexta-feira, quando o presidente Jair Bolsonaro mandou a Petrobras suspender o reajuste de 5,7% para evitar nova greve que paralisasse o país, como aconteceu no final do governo de Michel Temer.

"A maioria das transportadoras não pagou os valores da tabela, acordados com o governo para a suspensão da greve", afirmou a A República o dono de uma das maiores companhias de transporte do país. Com isso, especialmente os caminhoneiros autônomos continuaram estrangulados, numa situação que reúne duas crises: a conjuntural e a sistêmica.

A crise conjuntural é a queda da economia, que reduziu a atividade e deixou muitos caminheiros sem trabalho. Essa situação se agrava nos primeiros meses do ano, quando a demanda por transporte cai sazonalmente, depois da atividade de final de de ano. 

"Nos períodos de pico, 60% do meu transporte é feito por meio de caminhoneiros autônomos", diz a fonte de A República, que também tem uma frota própria. "Nos outros períodos, essa taxa cai para 30%." 

Com isso, os donos de empresas de transporte seguem a lei da oferta e da procura e não fizeram nenhum favor ao governo, descumprindo o acordo da tabela, feito para que os caminhoneiros desbloqueassem as estradas.

A crise sistêmica é o que o Brasil há muito tempo sabe e deixa de fazer: o país é excessivamente dependente do transporte rodoviário, que é mais caro e sujeito a chuvas e trovoadas.

Nunca foi feito o investimento necessário em transporte marítimo e ferroviário para o transporte de cargas, com inteligência logísitica para liberar as estradas brasileiras e reduzir o custo não apenas do transporte como do bem de consumo em geral.

Com a queda do nível de atividade econômica, agravado pelo custo do transporte, a demanda pelo transporte autônomo cai - e quem paga a conta é a Petrobras, que o governo obriga a subsidiar no diesel, para que possam oferecer serviços abaixo do custo. Trata-se assim de um círculo vicioso, em que a crise leva apenas a mais crise.

Queda na bolsa

A decisão de Bolsonaro, ao ordenar ao presidente da Petrobras Roberto Castello Branco que recuasse no ajuste do diesel, fez as ações da Petrobras caírem 8% na Bolsa de Valores na sexta-feira.

Não apenas pela perspectiva de nova crise paralisante do país como pelo abandono súbito do discurso liberal do governo na economia, com uma manobra igual à dos tempos criticados de Dilma Rousseff.

Na noite de sexta-feira, o presidente afirmou que a política do governo é de "mercado aberto e de não intervenção na economia". Mais cedo, já tinha dito que não defende práticas "intervencionistas", num sinal de que ação e discurso se distanciam.

Bolsonaro disse que é possível retardar o reajuste "por alguns dias" e marcou uma reunião para a próxima terça-feira (16) com a equipe técnica da Petrobras e os ministros Paulo Guedes (Economia), Tarcísio Freitas (Infraestrutura) e Bento Albuquerque (Minas e Energia).

"Se me convencerem, tudo bem, se não me convencerem tudo bem", disse Bolsonaro a jornalistas em sua viagem a Macapá. "Não é resposta adequada para vocês, não sou economista, já falei."

Na sexta, o ministro da Economia, Paulo Guedes, deu todos os sinais de que não participou da decisão e foi atropelado pelo presidente, preferindo não comentar a iniciativa de Bolsonaro. "Eu não sei nem do que vocês estão falando", disse ele, ao ser questionado por jornalistas.

Guedes afirmou ainda que passou a sexta-feira "trabalhando". "Eu tenho um silêncio ensurdecedor para os senhores", afirmou aos repórteres.

Já a Petrobras teve dar esclarecimentos à Comissão de Valores Mobiliários sobre a decisão de reverter o reajuste do diesel, que interferiu repentinamente no mercado, com milhares de acionistas perdendo dinheiro.

Em nota, a estatal afirmou que, diante do anúncio do reajuste, e de ameaças de uma nova paralisação dos caminhoneiros, foi "alertada" pela União para o possível agravamento da situação. O governo teria também solicitado esclarecimentos sobre o reajuste.

"A Companhia, então, [...] avaliou que as operações contratadas na quarta-feira permitiam um espaçamento por mais alguns dias no reajuste do preço do diesel", diz a nota.

Mais uma improvisação de um governo que fala duro, e morde a língua.