19 Nov 2019

Projeto "chileno" lança dúvidas e testa iniciativa privada

Por   Qua, 06-Nov-2019
Harari: falta o futuro Harari: falta o futuro

O pacote de medidas da redução do Estado que começou a ser enviado ao Congresso pelo governo, com a assinatura do ministro Paulo Guedes, levantou tantas perguntas quanto esperanças sobre seus resultados a médio e longo prazo. Sobretudo, com a saída do governo de uma série de áreas, das atividades econômicas ao próprio fomento de setores como a educação, a saúde e a geração do emprego, Guedes entrega à iniciativa privada brasileira a missão de preencher espaços, a começar pelos investimentos. Aí reside a maior aposta.

O Brasil nunca teve uma iniciativa privada de verdade, acostumada mais a usar o dinheiro do próprio governo, sem correr risco. Guedes corta essa danosa simbiose, mas não se sabe o que ficará em seu lugar.

Sem maior presença do governo, é dfícil dizer que o empresário brasileiro afinal aceitará correr riscos - sobretudo num momento de desestruturação da economia formal, com a redução do emprego e diminuição do mercado consumidor, os fatores que levam as empresas a investir. Quanto mais acreditar que o empresariado irá assumir um papel mais social.

Teoria e realidade

"A ideia, cara ao ministro Guedes, é transferir tanto quanto possível para o setor privado responsabilidades, inclusive sociais, hoje mantidas pelo Estado", escreveu o colunista econômico José Paulo Kupfer, em O Estado de S. Paulo. "A teoria reza que, ao tirar o Estado de cena, abrem-se espaços para a ascensão do investimento privado. Mas o investimento privado, cuja única premissa é o retorno acima do invertido, depende do consumo e da renda."

Kupfer aponta que o modelo pretendido por Guedes é o mesmo adotado no Chile desde a década de 1970, com uma privatização radical da economia. A reforma é aplicada agora a um país com uma população dez vezes maior, numa época diferente, em que se rompem antigos paradigmas econômicos.

Como ficou claro na verdadeira rebelião popular que tomou conta do Chile nos últimos tempos, as soluções ortodoxas já não funcionam em economias sujeitas a mudanças profundas do capitalismo global na era da informação.

No Chile, a privatização dos serviços públicos e das aposentadorias piorou a qualidade de vida dos cidadãos, desassistidos pelo Estado. No Brasil, viu-se que o assistencialismo do Estado, promovido pelo PT, também teve fôlego curto. Gerou uma bolha de consumo, mas não levou ao investimento da iniciativa privada para aproveitar essa onda. Como resultado, apenas quebrou o Estado e deixou a economia na estagnação.

Desenha-se para o Brasil hoje a necessidade imperiosa de ter que formular uma política econômica para uma era pós-ideologias. Focada no desenvolvimento econômico global tal como ele é, e não baseada no receituário clássico do liberalismo conservador, tanto quanto no assistencialismo estatal.

"A verdade é que a direita não tem as repostas para os novos desafios econômicos", afirmou, em sua passagem por São Paulo, o historiador Yuval Harari, autor de 21 Lições para o Século XXI.

Dessas lições, o governo ainda não aprendeu sequer a primeira, que é olhar para a frente, em vez de querer apenas corrigir o passado.