15 Set 2019

PIB cai 0,2% sob o efeito da turbulência no governo

  Qui, 30-Mai-2019
Construção civil: redução de expectativas Construção civil: redução de expectativas

Para a retomada dos investimentos, principal motor da recuperação econômica, é preciso tranquilidade, sem a qual o setor privado não assume riscos. E a falta de tranquilidade de um governo movido pelo confronto começa a produzir seu efeito. De acordo com o IBGE, o Produto Interno Bruto, que já vinha apontando um crescimento econômico cada vez menor, apresentou resultado negativo: queda de 0,2% no primeiro trimestre do ano, em relação ao trimestre anterior. 

A explicação para a queda é a intranquilidade reinante. O governo não conseguiu ainda aprovar as reformas pretendidas no Congresso e gera uma crise interna por dia, movido pelo Twitter do presidente Jair Bolsonaro e sua equipe de tuiteiros incendiários, espalhando o receio junto aos investidores.

O resultado negativo do primeiro trimestre foi puxado em grande parte pela retração nos investimentos. A formação bruta de capital fixo, uma medida de investimentos, caiu 1,7%. As exportações também recuaram 1,9% no trimestre. Com isso, a economia caiu, mesmo tendo sido registrado um aumento no consumo das famílias (0,3%), do governo (0,4%) e das importações (0,5%).  

O primeiro trimestre em geral é afetado pelo efeito sazonal, comparado com o último trimestre do ano, sempre aquecido pelo comércio no período de festas. Contudo, a média dos três primeiros meses do ano não apresentava sinal negativo desde 2016, quando o IBGE registrou queda de 0,6%.

A atividade da indústria caiu 0,7% e a da agropecuária 0,5%). Na indústria extrativa, a queda foi de 6,3%, sob o efeito da paralisação das atividades após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho.

"Essas atividades dependem em grande parte da produção industrial e refletem sua performance no trimestre, que foi negativa para todas as categorias econômicas", disse Claudia Dionísio, gerente de Contas Nacionais do IBGE.

"Todos perdem"

Com isso, todas as previsões para 2019 estão sendo rebaixadas, depois de um crescimento do PIB de 1,1% em 2018. O último Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, apontou para um crescimento este ano de 1,23%, 13a. revisão para baixo do índice, que começou  ano em 2,5%. O governo também baixou sua projeção para o crescimento da economia: agora, prevê crescimento de 1,6%.

A falta de confiança se traduz nos números e no planejamento dos empresários. O Boletim Macro, do Instituto Brasileiro de Economia, da FGV, detecta um "quadro de nível de atividade fraco e de piora das expectativas". O cenário, para a FGV, é de que é "muito difícil" uma recuperação rápida da confiança ao longo de 2019.

"Para que uma onda de otimismo, como a observada após o período eleitoral, traduza-se em uma efetiva melhora das condições da economia, seria necessária uma redução expressiva dos níveis de incerteza", afirma o Ibre em seu mais recente relatório. "Isso provavelmente só acontecerá quando - e dependendo de em que condições - for aprovada a reforma da Previdência e houver apaziguamento do ambiente político."

A economista Silvia Matos, coordenadora do boletim, aponta o conflito entre os poderes Legislativo e Executivo com um fator de desestabilização. "Todos estamos perdendo", afirma ela. "O governo precisa deixar de ser um agente que aumenta a incerteza na economia."

Mesmo com uma eventual melhora no cenário, o país já perdeu a oportunidade do clima favorável gerado com o entusiasmo em torno da eleição. Mesmo medidas como a refroma da Previdência não terão o mesmo impacto. "O governo até consegue uma economia maior com o novo texto, mas olha a que custo: um custo muito maior do que poderia ser se tivesse feito de forma mais eficiente", afirma a economista.

"Temos que continuar otimistas, mas otimistas moderados, para não passar o carro na frente dos bois", disse ao UOL o presidente da construtora e incorporadora Kallas, Emilio Kallas, que cortou pela metade seus projetos de investimento para 2019 - vai lançar 10 novos empreendimentos este ano, em vez de 20, como previsto inicialmente. "Estou adaptando quanto eu vou produzir ao otimismo do mercado", afirma. "Quem compra um apartamento tem que estar seguro porque fica ainda 20 ou 30 anos pagando", diz.

Presidente guerrilheiro

Dessa forma, o presidente Bolsonaro começa o governo de forma bem diferente do que se esperava. Em vez do Bolsonaro "paz e amor", sua versão com a faixa presidencial saiu muito parecida com ele mesmo, aquele deputado que passou 28 anos no Congresso como uma minoria inexpressiva. Agora, em vez do estadista, do líder da maioria, virou o guerrilheiro do Twitter - e o preço quem paga é o país.

Em vez de criar um ambiente favorável, inclusive à retomada dos investimentos estrangeiros, Bolsonaro tem funcionando como um Fidel Castro da direita: cria diariamente um ambiente de mobilização ideológica que, em nome do combate ao passado, instala uma tensão permanente no país. "O excesso de veneno na política intoxica a economia", escreveu o jornalista Josias de Souza, em sua coluna no UOL.

Já o empresariado, que apoiou Bolsonaro contra a volta do PT últimas eleições, também tem razões para desconfiar do futuro. E manter os recursos guardados no cofre, onde os altos juros pagos para sustentar a dívida pública continuam a ser uma fonte permanente de transferência de renda do setor público para o privado.