28 Nov 2021

O efeito econômico da pandemia sobre o mundo

  Qua, 27-Mai-2020
Fila do seguro-desemprego: 536.845 requerimentos apenas em março Fila do seguro-desemprego: 536.845 requerimentos apenas em março

Passados seis meses após o início do Covid-19 fora da China, o mundo já tem uma avaliação mais quantitativa do estrago na economia mundial, que já de antes não vinha muito bem. Nos EUA, a taxa de desemprego, que se encontrava em 3% antes do Covid-19, saltou para 14% - a mais alta desde a Grande Depressão. Nesta quarta-feira, 27 de maio, a Organização Internacional do Trabalho apresentou um balanço mundial. Ele mostra que um a cada seis jovens perdeu o trabalho em todo o planeta. Os trabalhadores que permaneceram com emprego tiveram, em média, uma redução de 23% em suas horas de trabalho.

O Brasil é um dos países mais afetados. O momento colabora para o cenário. "Isso coincide com o fato de que a região é hoje o epicentro da pandemia", afirmou em Genebra o diretor-geral da OIT, Guy Ryder. "No começo da pandemia, o continente das Américas era o menos afetado em termos de emprego. Hoje, o continente saltou para ser o mais afetado."

"O Brasil parece, de forma trágica, um dos países mais afetados no mundo", disse Ryder. "Há um bom motivo para estar preocupado com tanto a trajetória da pandemia como com a capacidade de implementar medidas para reagir a isso."

Com meses de atraso, o governo brasileiro divulgou somente agora os dados de emprego no ano. Entre janeiro e abril, 763.232 pessoas perderam o emprego, pior resultado desde que a pesquisa começou a ser feita, em 2010. Outros 4,4 milhões tiveram o contrato suspenso.

Somente em abril, foram cortados 860.503 trabalhadores, o que anulou a criação de 337.973 vagas em janeiro e fevereiro. Isso apesar do progranma federal de pagamento de benefícios para os que têm jornada de trabalho reduzida ou contrato suspenso, por meio do qual o Ministério da Economia acredita ter evitado 8,1 milhões de emprego.

Comércio afetado

O comércio foi o setor mais afetado. Foram fechados 342.748 postos e trabalho de janeiro a abril. Seguiram o setor de serviços, com 280.716 demissões, indústria (127.886) e construção civil (21.837). A agricultura foi o único setor a empregar mais: criou 10.032 empregos, no acumulado do ano.

As contas não consideram o trabalho informal, onde se encontra mais da metade da população brasileira, também afetada pela crise. De acordo com a estimativa da OIT, considerado o setor informal, mais de 3 milhões de pessoas perderam sua renda nos últimos meses na América do Sul, tendo à frente o Brasil.

A questão é que a pandemia será mais dura nos países de economia frágil e política turbulenta. "Existem preocupações de como a pandemia está afetando de forma mais dura os países em desenvolvimento diante da capacidade desses países em implementar as medidas corretas para conter o vírus, mas também para ter respostas no mundo do trabalho", afirmou o diretor da OIT. "E, claramente, o continente americano, onde informalidade é enorme, onde francamente diálogo social em muitos países não estão sendo efetiva, tem desafios."

Testes são essenciais

A OIT observou que países onde a população realiza mais testes têm retornado á atividade mais rápido, pelo nível de segurança que isso traz. Existe uma relação entre testes e a crise do desemprego. A perda de horas trabalhadas em países que testaram mais foi de 7%, contra mais de 14% em países com menos testes.

Para a retomada, é essencial a confiança de que a epidemia não voltará - e o Brasil é um dos países com menos testes realizados. Foram feitos no Brasil até agora cerca de 1 milhão de testes - menos de 1% da população.

O efeito da pandemia é ainda maior sobre os jovens. "A pandemia está infligindo um choque triplo aos jovens", afirmou o diretor da OIT. "Não só está destruindo seu emprego, como também atrapalhando a educação e a formação e colocando grandes obstáculos no caminho daqueles que buscam entrar no mercado de trabalho ou se movimentar entre empregos."

A taxa de desemprego dos jovens em 2019 era de 13,6% - a mais alta de qualquer outro grupo. Havia no mundo cerca de 267 milhões de jovens sem emprego, educação ou formação em todo o mundo.

"Se não tomarmos medidas significativas e imediatas para melhorar sua situação, o legado do vírus poderá estar conosco por décadas", disse Ryder. "Se o talento e a energia deles for prejudicado pela falta de oportunidades ou habilidades, prejudicará todo o nosso futuro e dificultará muito mais a reconstrução de uma economia melhor."