2 Jul 2020

O cenário macabro na economia

  Seg, 22-Jun-2020
A miséria na rua: desagregação na crise A miséria na rua: desagregação na crise

Relatórios de investidores e operadores do mercado financeiro nos últimos dias apontam para um cenário negro na economia brasileira para o restante do ano. Pode ser um pessimismo exagerado, mas, num mercado em que os humores dirigem as ações, a avaliação dos especialistas sobre a economia braisleira já contam para minar a cinfiança no futuro - e agravar uma situação que já é de crise galopante, visível nas ruas, onde a miséria se mostra num crescimento alarmante.

A consultoria Gavekal Research comparou o Brasil a um prédio em chamas no seu relatório para investidores da semana passada. "Neste momento, é melhor deixar o Brasil para os especialistas, malucos, oportunistas de longo prazo e aqueles sem outras opções", afirma, no texto, o economista Armando Castelar.

Mesmo as declarações mais moderadas não deixam de ser cataclísmicas. "Com base nos nossos indicadores de confiança, sentimento e ciclo, esta realmente está sendo uma crise atípica e mais intensa que qualquer outra que tenhamos observado", afirmou ao UOL a economista do Ibre-FGV Viviane Seda.

O Fundo Monetário Internacional estima para o Brasil uma queda da atividade econômica, por meio do Produto Interno Bruto (PIB), de 5,3% este ano - pouco mais que o próprio governo, que prevê um recuo de 4,7%. seria a maior queda desde 1990, quando a economia caiu 4,35%, no primeiro ano do governo Collor, que não terminaria seu mandato.

Com o Covid-19, os especialistas estimam que o desemprego, estacionado em 12% antes da pandemia, pode alcançar 18,7% ao final do ano, de acordo com estimativa da Fundação Getúlio Vargas.

Isso significa que um entre quatro brasileiros ativos, cerca de 20 milhões de pessoas, deve estar formalmente desocupado. Entre eles, 3 milhões no mercado formal, o que significa também menos arrecadação de impostos, além da queda geral nas vendas.

Enquanto especialistas prenunciam um futuro terrível, a Bolsa subiu de 80 mil para 96 pontos no último mês. Sinal de que o movimento dos mercados de ações anda descolado das previsões dos especialistas, baseadas somente nos fundamentos econômicos.

"pelos fundamentos da economia, a Bolsa deveria estar em 40 mil pontos", afirma um financistas ouvido por A República, especializado na compra e venda de empresas para reestruturação. "As empresas ainda vão divulgar sues balanços e as coisas podem mudar."

Ele lembra que as bolsas não refletem exatamente a economia, e sim o desempenho de um cesto de empresas cotadas em mercado. Ainda assim, há muito mais sinais de que as bolsas estejam navegando no ar como um bolha do que com base na realidade, que sempre aparece, cedo ou tarde.

O coronavírus levou 1,5 milhão de pessoas a depender do seguro-desemprego entre março e abril - uma alta de 31% em relação ao mesmo período do ano passado. O Ministério da Economia estima que outros 7 milhões de trabalhadores estão sob regime de salário e jornada de trabalho reduzidos, o que também se traduz em redução da atividade econômica.

Para piorar, o cenário econômico vem associado à crise política, outro fator de instabilidade que leva á insegurança geral. O presidente Jair Bolsonaro se vê às voltas com suspeitas que começam a partir dos negócios do filho, o senador Flávio Bolsonaro, e tem reagido com movimentações no sentido de promover um golpe, aliciando militares.

Mais um fator que leva o Brasil, com uma base política, social e institucional frágil, a responder pior às crises que outros países. O Covid-19 bateu duro em duro o mundo, mas em países de política mais sólida, a sociedade se torna mais coesa na dificuldade, enquanto no Brasil tende a desagregar-se.

Talvez seja uma boa lição para o futuro, já que, para o presente, é tarde demais.