23 Jul 2019

Guedes vira mais um fator de instabilidade no governo

  Sex, 24-Mai-2019
Guedes: ameaça de "fogo" Guedes: ameaça de "fogo"

O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou em entrevista à revista Veja que irá deixar o cargo se a reforma da Previdência, que afinal começou a tramitar no Congresso, virar uma "reforminha". Em tom alarmista, disse que sem ela o país irá "quebrar já em 2020". E fez pouco caso das consequências. "Pego um avião e vou morar lá fora, já tenho idade para me aposentar", disse. "Se não fizermos a reforma, o Brasil pega fogo."

Com essa postura, Guedes vai se tornando outro fator de instabilização no governo Bolsonaro. Primeiro, pela seleção do veículo de imprensa escolhido para dar o seu recado: o BTG-Pactual é o investidor responsável pela compra da massa da Editora Abril, hoje em recuperação judicial, incluindo Exane e Veja. O segundo, é o tom de ameaça, como se não estivesse dando saída ao Congresso - um tipo de pressão da qual os parlamentares costumam não gostar.

Por fim, Guedes faz um empenho muito pessoal na reforma, como se fosse a única coisa que lhe importasse, o que faz confundir o projeto de governo com interesses próprios - o BTG foi um dos bancos que implantaram e operam o sistema de capitalização no Chile. 

"Suíça"

Em 24 de março, o jornal Valor econômico anunciou a compra dos títulos de Veja e Exame pelo BTG de Guedes. O controle de ambas as publicações, segundo o jornal, faz parte do acordo entre o advogado Fabio Carvalho, comprador da Editora Abril, e o banqueiro André Esteves, sócio de Guedes no BTG, financiador da aquisição.

Esteves,  preso em novembro de 2015, depois que promotores o acusaram de tentar comprar o silêncio de uma testemunha envolvida em um esquema de suborno na investigação da Lava Jato, retornou ao banco para ocupar o lugar de Guedes com sua saída para o ministério.

O ministro da Economia já defendeu publicamente o funcionamento do sistema de capitalização implantado no Chile com ajuda do BTG, que agora ele pretende reproduzir no Brasil. Disse que o Chile virou "uma Suíça" depois que o sistema foi implantado.

Não é uma opinião unânime e certamente agrada mais ao próprio BTG que aos chilenos. “Este sistema do Chile está fracassado", afirmou o economista da Universidade Católica do Chile, Marco Kremerman, pesquisador da Fundação Sol, voltada para o estudo das Administradoras de Fundos de Pensão (AFP). "Este fracasso está se estendendo aos poucos países que, de 1981 até hoje, privatizaram parcialmente ou totalmente seus sistemas de Previdência.”

Estabilidade

Em viagem ao Nordeste, o presidente Jair Bolsonaor afirmou que a ameaça por Guedes de sair do governo "é um direito dele". " Ninguém é obrigado a continuar como ministro meu", disse. "Logicamente ele está vendo uma catástrofe, é verdade, eu concordo que se nós não aprovarmos algo realmente muito próximo ao que enviamos no Parlamento o Brasil vai viver um caos econômico, não é reciso ser vidente.”

Ainda que Bolsonaro e Guedes concrdem com a gravidade do assunto, o Congresso tem o dever de debater a reforma, que não pode ser apontada como a salvação nacional, até porque seu efeito, ao contrário do que afirma o ministro, somente será sentido no longo prazo. 

Para voltar a crescer, o Brasil hoje depende muito mais de estabilidade, capaz de trazer de volta investimentos nacionais e estrangeiros, que da reforma previdenciária. Assim como reduzir os juros da dívida pública, que fazem do setor bancário, de onde vem o ministro, um paraíso de rentabilidade, enquanto o resto do país beira desastre. É justamente estabilidade que tem faltado ao governo Bolsonaro - onde Guedes se apresenta como mais um promotor da agitação

No Chile, 100% das contas de aposentadoria de trabalhadores vão para contas individuais. O governo prometeu que as pessoas teriam uma aposentadoria equivalente a 80% de seu último salário na ativa. Na prática, apesar da capitalização, a maioria das pensões pagas são menores que o salário mínimo ou mais baixas das de aposentados antes da sua implantação.

Em compensação, bancos privados passaram a administrar cerca de 220 bilhões de dólares - o equivalente a 75% de toda a economia chilena. Houve, dessa forma, uma grande privatização do Estado chileno. Das cinco empresas com capital internacional que administram as aposentadorias no Chile, três são controladas por empresas americanas - Principal Financial Group, Prudential Financial e MetLife. Outra é a AFP PlanVital, controlada pela seguradora brasileira do BTG Pactual.

"Nega direitos"

"O sistema de capitalização tem levado multidões às ruas [no Chile], pois empobrece idosos e nega direitos, enquanto é extremamente rentável às Administradoras de Fundos de Pensão (AFP)”, afirma Andras Uthoff, doutor em Economia pela Universidade de Berkeley, ex-assessor da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Dessa forma, se o Chile tem alguma semelhança hoje com a Suíça, é o fato de ter se tornado um paraíso bancário.

 

Na entrevista, o ministro destila veneno do começo ao fim. "Eu não sou irresponsável, eu não sou inconsequente: ah, não aprovou a reforma, vou embora no dia seguinte", disse ele, como se meramente lançar a dúvida no já não fosse irresponsabilidade.

Aí, Guedes completa: "Agora, posso perfeitamente dizer assim: ‘Olha, já fiz o que tinha de ter sido feito. Não estou com vontade de ficar, vou dar uns meses, justamente para não criar problemas, mas não dá para permanecer no cargo’. Se só eu quero a reforma, vou embora para casa."

O ministro disse que ainda há coesão em torno da agenda econômica do governo. "Eu confio na confiança que o presidente tem em mim", disse. Não é a primeira vez, porém, que ele ameaça sair do ministério.

Em março, Guedes já afirmou não fazer questão do cargo, se não puder levar suas ideias adiante do jeito que as imaginou, em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos da Câmara.

"Eu venho para ajudar", disse. "Agora, se ninguém quiser o serviço, vai ser um prazer ter tentado, não tenho apego ao cargo, como também não tenho inconsequência e a irresponsabilidade de sair na primeira derrota, desistir.'